Posted on: 15 de março de 2022 Posted by: michele Comments: 0

Ilustração: @espacio_aberto arte gráfiko

Uma comunicação colaborativa. Popular. Diversa. A serviço dos povos e suas lutas. Comprometida com a construção do bem viver. Contra todos os monopólios, contra todos os latifúndios. Adubando um novo tempo a partir de antigas sementes para reflorestar a terra arrasada que nos deixa o capitalismo, o colonialismo, o patriarcado. Ocupamos os latifúndios midiáticos com nossas palavras, nossas vidas, nossas lutas, nossas histórias. Eis a proposta da cobertura colaborativa da I Jornada de Agroecologia da Teia dos Povos em Luta no Rio Grande do Sul. 

Há séculos se conserva o monopólio das terras nas mãos de poucas famílias poderosas, utilizando o Estado para legitimar e proteger seus interesses, criando formas legais ou ilegais que visam barrar qualquer avanço popular na construção de autonomia, não importa quem esteja no poder. Isso acontece também com os meios de comunicação, em que algumas famílias concentram inconstitucionalmente as outorgas de transmissão. Em paralelo, rádios comunitárias são perseguidas e sistemas independentes de comunicação são boicotados das mais diversas formas. Mesmo na internet, aparentemente tão livre, estamos reféns de um gigantesco monopólio, sua vigilância e seus algoritmos: quase todas as plataformas que utilizamos cotidianamente estão concentradas nas mãos de uma única empresa.

Além da concentração econômica e estrutural dos meios de comunicação de massa (que se disseminam também na internet), a lógica do monopólio se dá no que é transmitido, no teor das mensagens emitidas. Antes nos vendiam que o jornalismo feito por essas emissoras era neutro, hoje nos dizem serem objetivos, fiéis aos fatos. Esquecem de dizer que tudo é leitura e cada olhar faz a sua. Quem vê e de qual ângulo vê altera o fato. Tudo depende da perspectiva. Essas emissoras e seus jornalistas, colunistas, comunicadores não veem do mesmo ponto do nosso. Não pisam com os pés na terra. Não se organizam coletivamente, de forma autônoma, criando redes de apoio mútuo por uma vida boa para todos os seres. Veem do ponto de vista do patrão, do ponto de vista eurocêntrico, elitista, hegemônico. Seja através da visão evangélica fundamentalista, seja da visão fiel ao mercado financeiro e ao agronegócio. 

Acreditamos que as coberturas colaborativas, populares e autônomas podem e devem ocupar este latifúndio comunicacional – assim como a agroecologia faz em relação ao monocultivo. Diversos olhares compondo um terreno fértil e biodiverso sobre a realidade. Construção coletiva para firmarmos nosso direito à memória através dos nossos pontos de vista, dos de baixo. Ao narrar o que acontece nas nossas vidas, estamos dando sentido à nossa realidade, e disputando os sentidos da existência compartilhada. Dando vazão às muitas histórias para além da dita História. Acreditamos que a vida precisa ser adubada com a experiência e sabedoria dos povos, das lutas, dos movimentos, daquelas que constroem o bem viver no seu cotidiano, apesar do todo da máquina. Que re-existem há séculos e séculos de opressão. Precisamos ouvir e contar essas histórias, essas maneiras de entender o mundo e caminhar nele.

A luta é também por estabelecermos um sistema que não dependa da estrutura das megacorporações ou do Estado para informar. Uma rede de transmissão de nós para nós. Que leve em consideração a pluralidade nas narrativas, que reconheça a importância do software livre frente aos sistemas proprietários, que preze pela construção coletiva. A comunicação popular não só como transmissora de informações, mas como ferramenta política na construção de um novo mundo que surge das memórias ancestrais. Não só no que diz respeito ao que é transmitido, mas também na forma de fazer. Não cabemos nos formatos hegemônicos.

Mais do que ferramenta, comunicar diz respeito a quem somos e nossa maneira de estar no mundo. Comunicar é tornar a ação comum. Sem comunicação, não existe ação comum. Sem comunicação, não existe memória. E um povo sem memória é um povo sem história. Que se deixa conduzir pelos interesses de poucos. Narrar nossas histórias é relembrar quem somos para nos reconstruir no presente – e ousar semear futuro.

Cobriremos a I Jornada de Agroecologia da Teia dos Povos em Luta no Rio Grande do Sul, que acontecerá de 18 a 20 de março no Assentamento Carlos Marighela e na tekoa Guaviraty Porã, em Santa Maria. Repórter Popular, Coletivo Catarse, Deriva Jornalismo, Território Junana e outras iniciativas se somam na construção deste mosaico narrativo, uma bomba de sementes de imaginários outros. Os conteúdos serão compartilhados nos perfis de cada veículo nas redes digitais e concentrados no perfil da Teia dos Povos. 

Plantemos nossas histórias.

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