Posted on: 25 de abril de 2022 Posted by: michele Comments: 0
Primeiro encontro da Teia dos Povos em Luta no RS fortaleceu as redes de agroecologia contra a fome e o ecocídio

Territórios vinculados à Teia dos Povos. Quilombolas, povos Guarani e Kaingang, camponeses e camponesas. Coletividades e gentes de luta que reexistem no campo, na floresta e na cidade. Após um longo período de isolamento forçado frente à pandemia, revivemos a alegria dos grandes encontros na I Jornada de Agroecologia da Teia dos Povos em Luta no Rio Grande do Sul, em março desse ano em Santa Maria, região central do estado.


Fomos nos achegando movidas por uma grande necessidade de compartilhar experiências de luta e agroecologia para solucionar problemas graves da vida dos povos e comunidades, como a fome que ameaça a vida dos pobres e o ecocídio que ameaça parentes humanos e não humanos, colocando em risco todo o ecossistema terrestre.

Impulsionades pela Teia dos Povos da Bahia e outras teias que vêm surgindo em latitudes mais altas, tivemos a honra de contar com a sabedoria de mestre Joelson Ferreira e da pajé Rita Muniz Tupinambá. Vieram da Bahia trazendo a experiência da luta e da organização coletiva, assim como da guiança dxs encantados e os saberes antigos de como dialogar com elxs para viver bem, em comum com todos os seres.


Foi nosso primeiro encontro presencial enquanto Teia dos Povos em Luta no RS, que se formou há pouco mais de um ano. Aproveitamos o momento pré jornada para nos reunirmos entre aquelxs que já vêm tecendo essa Teia – nos re-conhecermos, olharmos, abraçarmos. Esse pré encontro aconteceu no Assentamento Carlos Marighella, tendo o grupo Guandu Agroecológico como anfitrião. Despalhamos milho, descascamos amendoim, nos apresentamos e conversamos sobre nossa organicidade, nossas estratégias de comunicação e a cobertura colaborativa da jornada.

Num segundo momento nos encaminhamos à Tekoa Guaviraty Porã, aldeia Mbya Guarani vizinha ao Guandu, que abriu as portas e braços para receber o encontro. Já na sexta feira, dia 18 de março, começaram a chegar caravanas de várias partes do estado, e até de outros. Muitos encontros e conversas informais já se teciam, preparando o terreno para o primeiro dia oficial da jornada.

Compartilhando novas sementes ancestrais 

A abertura oficial começou com um rezo para os encantados, ao redor do fogo, conduzido pela pajé Rita Muniz, liderança espiritual Pataxó Hã Hã Hãe com muita experiência em retomadas – de terras, territórios, saberes e  espiritualidade. Rita pediu aos encantados que cada gota de sangue derramada de seu povo seja transformada em sementes.

Eduardo do Coletivo Guandu falou do contexto local, essa encruza na periferia de Santa Maria entre o assentamento, o trabalho com a agroecologia, a tekoa Guarani e a ocupação urbana Vila Resistência – e ainda um presídio, símbolo incorporado da violência do Estado. A urbanização empurra a periferia cada vez mais pra fora, chegando com tudo no que agora se transforma numa zona industrial. E criar outras formas de viver e resistir numa realidade como essa são maneiras de cultivar possibilidades e semear esperança.


O cacique da tekoa Guaviraty Porã, Cesário Timóteo, agradeceu a Deus pelo dia e deu as boas vindas a todo mundo presente. Contou que ali vivem 32 famílias, 125 pessoas. 


Na sequência, mestre Joelson convocou os povos indígenas e negros a se levantarem e se aprochegarem. Ele queria devolver sementes de avaxi ete, milho Mbya Guarani, que pegou há 15 anos no Rio Grande do Sul, plantou e multiplicou. Saiu distribuindo nas mãos das pessoas, emocionadas. E convocou “outros povos” para se somarem, outras coletividades e pessoas que se comprometem com essa grande aliança.

O pessoal da Guaviraty Porã respondeu ao gesto: entregou lindas espigas de avaxi ete pro mestre Joelson levar novamente pra Bahia.


Uma aliança que se tece a partir das sementes ancestrais – aliás, de uma bem específica: milho. Planta sagrada pra tantos povos desse continente, que dá origem à humanidade que somos. Nosso verdadeiro alimento. Hoje predominantemente transgênico, fruto do latifúndio e do agronegócio, matéria prima de comida-veneno fast food e de ração pra criação grotesca de animais. O sistema perverteu o que temos de mais sagrado. E retomar sua sacralidade, sua origem, seu potencial como alimento, seu cultivo coletivo, sua beleza e diversidade, é revolucionário. Uma maneira muito bonita, simbólica e concreta, de combater a fome e o ecocídio.

A Teia dos Povos surgiu na Bahia justamente numa Jornada de Agroecologia. A questão da autonomia alimentar, das sementes e do cuidado com a terra está em sua origem e centro. Joelson disse que a revolução no campo não acontecerá com máquinas e muita terra na mão de poucos, mas com muitas pessoas cultivando pequenos pedaços de terra com suas mãos. E “quem estiver doente que plante floresta”, sugeriu, referindo-se a essa doença moderna que é a depressão, que ele chamou de banzo, “o medo do invisível”.


“A gente vive da nossa luta, a gente sobrevive, mas a gente não consegue enxergar além” disse Leandro, liderança da tekoá Guaviraty Porã, destacando a importância do rezo, do discernimento, de ter as visões do que fazer, para onde ir. “Temos que enxergar melhor onde a gente tá, de onde viemos, quem somos. Importante a gente se reunir como estamos fazendo hoje aqui na aldeia. E a gente continuar essa união daqui pra frente pra poder trazer um pouco dessa força que a gente precisa como povos indígenas, quilombolas, sem terra.” Falou também da árdua luta indígena, de como seus direitos estão ameaçados, e da necessidade de cuidar da terra, da natureza, porque sem ela a gente não vive.

Wera Xunu, professor da escola da tekoa Ka’aguy Porã, de Maquiné, disse que a cultura Guarani é receber todo mundo de braços abertos com sorriso no rosto. “Pra gente não existe inimigo, somos todos parentes”, diz ele, e que “o mundo não foi feito para se adonar da terra, ter terra só pra uns: somos todos donos da terra, o importante é a gente viver bem, na natureza, na paz”.


Pajé Rita compartilhou que pensava que não era uma pessoa politizada, mas entendeu que na verdade ela é leiga nessa cultura, nessa política que beneficia uns e destrói outros: destrói a mata, os rios, os sonhos, as vidas. Que simplesmente por ser quem ela é, pela sua história, pelo seu povo, pela luta pela terra, a política mora nela. “Eu cresci vendo minha mãe, uma mulher guerreira, sábia, pajé, com todo conhecimento… Ela nunca precisou ir numa faculdade mas ainda assim era uma médica”, contou Rita. E com a morte de sua mãe por falta de atendimento, quando Rita tinha 18 anos, ela começou a fazer a retomada de si. “Mesmo não sabendo de política, essa força vem da terra, das raízes, das sementes, da minha história, história dos meus ancestrais”, agrega. 


Michele, do Território Junana (Maquiné), saudou o povo Guarani e seu grande encontro que acontecia em São Paulo no mesmo momento da Jornada, o que impediu que muitas lideranças do estado comparecessem na Jornada em Santa Maria. Ela falou sobre o papel das mulheres na luta, que sofrem violência e apagamento. “Que a revolução das mulheres possa acontecer junto a uma revolução maior ainda, uma revolução dos povos pobres, pretos e indígenas”, disse, e se remeteu à luta das zapatistas. Essas mulheres indígenas fizeram “a 1a revolução dentro da revolução” desse movimento no sul do México que há quase 30 anos retomou suas terras e criou suas próprias formas de governo, saúde, educação e tudo que se precisa pra viver bem em coletividade, inspiradxs em seus saberes e fazeres ancestrais, como povos do tronco Maia que são. 


Durante a Jornada, uma exposição fotográfica sobre o I Encontro Internacional de Mulheres que Lutam, que reuniu milhares de mulheres de várias partes do mundo em território autônomo zapatista em 2018, ficou disponível nas paredes da área comum.

Em seguida, tivemos várias intervenções do povo negro e quilombola. Ana Tereza Santana saudou os Orixás e as forças das matas, e chamou para junto dela todo o povo negro e quilombola que a acompanhou desde São Lourenço do Sul e do Quilombola Coxilha Negra. Ela contou que o quilombo se fortaleceu durante a pandemia, que se reuniam, faziam refeições coletivas aos finais de semana para se darem apoio mútuo em momentos de tensão. “O povo preto tem algo além, porque não deixou para trás sua história”, diz ela, e complementa que, apesar de terem sidos empurrados para a cidade/senzala, a luta leva o povo preto para o quilombo. “Mesmo os que residem na cidade, têm as raízes fixadas no quilombo e na terra”, afirma. 


Carina falou das dificuldades de transitar na cidade, e chama as pessoas pretas presentes para se juntarem aos quilombolas, porque ainda que não sejam quilombolas, são frutos das mesmas histórias – estão vivas hoje graças aos quilombos de ontem. E chamou todo mundo para cantar e dançar. “Negro é a raiz da liberdade”.


A pesquisadora quilombola Juliana Soares convocou a todes a se inquietarem com a questão racial, pois sem isso não há construção coletiva. “Se vocês se inquietarem com o racismo, podemos fazer a luta juntos, estaremos de braços abertos pro abraço negro”, disse.

Na sequência, Rai Silva, da Vila Resistência, coletividade coanfitriã da Jornada, contou que se trata de uma ocupação por vida e moradia digna. São 48 famílias desde 2016 resistindo à especulação imobiliária, e a ideia é construir outras ocupações. Rai disse que é importante manter viva a resistência e organização, que o povo negro sempre resistiu. “Acreditamos nisso, em semear essa outra forma de viver, outros princípios. O sistema nos ensina a competir e dar valor ao que não nos fortalece, porque povo preto, pobre, organizado faz a diferença”, defende. E complementa:

“Valores, ideias e crenças são impostas para desviar do caminho, para que acreditemos num sistema que quer o extermínio do nosso povo. O povo organizado faz política e pode mudar o sistema colonialista. Não precisamos alimentar o sistema que tem como base o sangue negro e indígena. O caminho é fortalecer a luta, resgatar outra forma de viver com sonhos e esperanças. Imagina viver num mundo com dignidade, direito à moradia, à terra. Semear essa semente de esperança nas crianças.


A participação na Teia dos Povos vem da necessidade de construir essa aliança preta indígena e popular. Estamos aqui porque acreditamos noutro mundo que construímos diariamente. Que se faz no dia a dia, cada uma e todos juntos. Bonito é o povo forte”, diz Rai.


Pra finalizar, Adilson se apresentou como um Kaingang desterritorializado, refugiado em Rio Grande. “Comove a gente não aldeado quando se fala de racismo, porque vivemos isso há séculos no Brasil”, contou, e relatou o quão difícil é viver fora da aldeia. “Queremos aldeia para não perder nossa cultura, nosso ritual”, falou Adilson. E disse se sentir muito fortalecido por estar na Jornada, agradecendo à organização e à aldeia anfitriã. 


Ao longo das falas, muitas pessoas estavam visivelmente emocionadas. Quiçás todas. Sentimos a potência de nossa aliança, nossos corpos e corações reagiram à importância de estarmos tecendo esse caminho diversamente comum. Essa grande e necessária aliança.

Saberes, diálogos, sentires e fazeres

Ao longo do encontro, muitas conexões, reencontros, partilhas. Nos quatro Grupos de Trabalho – sobre Mulheres e Diversidades, Campo, Cidade, e Floresta – pudemos conversar em roda sobre as urgências, perspectivas, estratégias e propostas, gerando acúmulos que ficam como frutos que amadurecem para os próximos passos das lutas dos povos. A linha geral era de construção das soberanias nos territórios através de lutas diretas, com a elaboração de projetos de construção de autonomia e emancipação para além das ilusões da política institucionalizada, pois só os povos podem ser os protagonistas de suas lutas.

Na noite de sábado a tradicional cultural começou com cantos Guarani sob a lua cheia, ao redor do fogo, ao lado do carijo. E teve sequência com o sarau Mulheres e Agroecologia. Muitas poesias, canções, performances, que terminou em roda de cantos para os sagrados Orixás, caboclas, amada Mãe Terra e uivando para a lua. Para encerrar, Bando Cunumí, grupo de Santa Maria que traz canções em ritmos desse continente inspiradas na lutas e nas vidas das gentes. Acordeon, tambor, vozes, violão, percussão e violino provocaram danças e emoções – com a intervenção memorável do artista cubano José Héctor Pomelapocha, que no dia seguinte deu uma animada oficina bailante de salsa.

De sábado para domingo o mutirão do carijo – feitio artesanal de erva mate, essa sabedoria tão indígena, tão ancestral – foi guiado sob os ensinamentos de Karaí Papá, liderança Guarani, de Moisés Luz e do coletivo Araucária Resiste. Sapeco da erva mate no fim de tarde e secagem sobre o fogo na madrugada; no domingo, moagem da erva ritmada no pilão, a muitas, muitas mãos. Domingo foi o dia das despedidas, mas também foi dia de trabalho coletivo. Além da finalização da carijada, houve mutirão na horta da aldeia e na construção da estrutura de uma casa.

Autogestão: cozinha, cuidado com as crianças, limpeza e comunicação

O encontro se organizou de forma autogestionária em quatro grupos, e todes foram convocades a somar em algum deles. Houve cuidado especial com as crianças, jogos e brincadeiras. O pebolim teve destaque. A equipe de limpeza e infraestrutura ralou para manter tudo funcionante e organizado para as centenas de pessoas que frequentaram a Jornada. A cozinha nos presenteou com banquetes, entre eles comida ancestral quilombola e milho azul Guarani. E a comunicação se organizou já antes da Jornada, lançando esse manifesto e agregando pessoas que chegaram no encontro, permitindo a memória e divulgação do evento (como fazemos por meio dessa publicação), mas também a reflexão e prática de outras formas de se fazer comunicação em comum, seus sentidos e possibilidades. E, pós jornada, lançamos as sementes dos nossos perfis locais nas redes sociais da Teia dos Povos em Luta no Rio Grande do Sul (@teiadospovosrs). Que possam disseminar as boas lutas, a ancestralidade e a esperança! 

A semente foi plantada

A 1ª Jornada de Agroecologia da Teia dos Povos em Luta no Rio Grande do Sul foi uma celebração da vida, dos mundos de pão, terra, trabalho e festa que tecemos em nossos sonhos coletivos, e para os quais caminhamos em nossas jornadas. 


Como disse a pajé Rita Muniz sobre a presença de cada umx e de todes: “talvez a gente pense que é por acaso, mas é na verdade um reencontro, esse encontro já tava marcado há muitos anos. Isso vai nos unir, nos fortalecer, vai fazer com que essa semente que mora dentro de nós germine. É uma retomada de nós mesmos, dos nossos sonhos e da nossa história.”

Que venham as próximas. Até lá, sigamos cultivando as boas práticas, lutas, escutas, sementes e palavras. Que possamos cuidar da terra, deixar ela cuidar da gente, para compartilhar a fartura que o caminhar humano em equilíbrio com a dança cósmica da vida proporciona. Sabedoria que os povos que reexistem há séculos têm a ensinar em meio a essa grande crise. Uma crise sistêmica causada pela civilização capitalista, colonialista, patriarcal e racista que esqueceu que a natureza também é nós.


Combatemos a fome e o ecocídio retomando territórios ancestrais, regenerando, reflorestando, produzindo e compartilhando alimento sadio. Plantamos e multiplicamos sementes ancestrais e modos de vida justos, alegres e ecológicos. Honramos a ancestralidade e vivemos em diversidade. 


Combatemos a fome e o ecocídio nos organizando, tecendo redes, lutando contra a ganância e a exploração. 

Como dissemos na Carta da I Jornada de Agroecologia da Teia RS, o grande desafio para o próximo período é seguirmos agrupando núcleos de base e fortalecendo a Teia pelas regiões do estado através das lutas e pautas locais, criando atividades de agroecologia, construindo autonomias que possibilitem o avanço na luta territorial dos povos contra o agronegócio e compartilhando nossas sementes e nossos diferentes entendimentos de como bem habitar esse planeta e caminhar nele.


Praticamos agroecologia porque acreditamos na diversidade da vida. Contra qualquer forma de dominação, monocultura e latifúndio. Pela saúde da terra, das águas, do ar e de todos os seres que coabitam esse planeta. Nossa luta é por amor.

Este conteúdo faz parte da cobertura colaborativa da I Jornada da Teia dos Povos dos Territórios em Luta no Rio Grande do Sul. Repórter Popular, Coletivo Catarse, Deriva Jornalismo, Território Junana e outras iniciativas se somaram na construção deste mosaico narrativo, uma bomba de sementes de imaginários outros. Agradecemos as gurias de luta que contribuíram para a relatoria do encontro, garantindo assim a memória coletiva e subsidiando esse material. Saiba mais sobre essa proposta:

Veja também: Carta da I Jornada de Agroecologia da Teia dos Povos em Luta no RS

Outras publicações da cobertura colaborativa da Jornada:

Vi Deus, ela é uma mulher indígena – Brasil de Fato RS

A debulha do milho – Coletivo Catarse

Timóteo e Papá – Coletivo Catarse

Mestre Joelson – Coletivo Catarse

Ana Tereza e Michele Santana, mulheres quilombolas – Coletivo Catarse

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