Posted on: 20 de junho de 2026 Posted by: Teia dos Povos Comments: 0

por Por Nicole Pita para 350.org

O modelo agropecuário dominante é altamente dependente dos combustíveis fósseis, contribui para o aquecimento global e tem relação direta com os preços dos alimentos, que aumentam tanto nos Estados Unidos quanto na Alemanha e na Argentina. A produção agroecológica confirma que se pode produzir em escala, sem pesticidas nem transgênicos, e cuida do meio ambiente e da saúde. O papel dos governos, das corporações e das famílias camponesas. 

Se você sente que gasta cada vez mais no supermercado, não é impressão sua. No México e no Brasil, os preços dos alimentos aumentaram 42% e 50%1, respectivamente; nos Estados Unidos, as famílias pagam quase 25% a mais2 do que em 2020; e na Alemanha, a alta foi de 43%3 em relação aos preços de cinco anos atrás. 

Agora, um painel de especialistas em sistemas alimentares sustentáveis alerta sobre uma crise incipiente nos preços dos alimentos, resultado do acentuado aumento no custo da energia em todo o mundo, como consequência da guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã.

Qual é o motivo? Basicamente, isso se deve ao fato de que nossos sistemas alimentares são movidos a combustíveis fósseis: sempre que há uma crise (uma pandemia, uma guerra ou uma seca), todos nós pagamos o preço. Em nível global, os sistemas alimentares utilizam 15% dos combustíveis fósseis. Isso é apontado no relatório Do combustível à mesa.4

Qual é a conexão entre os alimentos e os combustíveis fósseis?

Os sistemas alimentares consomem 15% do total de combustíveis fósseis do mundo. Eles fornecem energia em cada etapa durante a produção, o processamento e o consumo de alimentos, desde o uso de agrotóxicos e tratores a diesel até o transporte de longa distância e o gás que usamos para cozinhar. Quando o preço do petróleo e do gás sobe, o preço dos alimentos também sobe.

Os alimentos, os fertilizantes e os preços da energia fóssil estão estreitamente inter-relacionados, de modo que a dependência dos fósseis cria uma tríplice ameaça. Em primeiro lugar, torna os alimentos vulneráveis a picos de preços. Em segundo lugar, intensifica a emergência climática e provoca secas e inundações que destroem colheitas. E, em terceiro lugar, o sistema fica nas mãos de um punhado de corporações que o controlam e obtêm lucros desorbitantes sempre que uma crise surge.

Não é um problema novo, mas está piorando. Durante a pandemia da Covid-19, as interrupções na cadeia de suprimentos impulsionaram a alta dos alimentos. Quando a Rússia invadiu a Ucrânia, em 2022, subiram os preços da energia, dos fertilizantes e do trigo, com o consequente impacto no custo das compras. Em cada uma dessas ocasiões, milhões de pessoas ficam à mercê da fome, sobretudo nas regiões mais empobrecidas e vulneráveis do mundo.

Atualmente, voltamos a ver esse fenômeno com a eclosão da guerra no Golfo Pérsico. O preço do petróleo5 e dos fertilizantes6 subiu 50% desde o início da guerra; o dos alimentos ainda não disparou, mas vai disparar. Um terço do petróleo bruto e um terço dos fertilizantes 7normalmente passam pelas rotas de transporte que estão bloqueadas pelo conflito. Mesmo que a guerra terminasse amanhã, a recuperação das cadeias de suprimentos levaria meses.8

Atribui-se ao choque da Covid-19 e da guerra na Ucrânia quase metade de todos os aumentos no preço dos alimentos nos Estados Unidos e 35% dos aumentos na União Europeia nos últimos cinco anos.9 Somente entre 2021 e 2022, a fome afetou 45 milhões de pessoas10 a mais em todo o mundo, que não conseguiram arcar com o custo dos alimentos.

Há outro motivo pelo qual os alimentos continuam encarecendo: a crise climática, à qual a energia fóssil contribui. Em 2022, na região do Meio-Oeste dos Estados Unidos e no Canadá, as secas arruinaram as colheitas; em 2023 e 2025, na Índia e no sul da Ásia, as inundações dispararam o preço do arroz. E a crise climática em si mesma afeta as colheitas11, dificultando o cultivo de alimentos. A ironia é que os sistemas alimentares geram um terço das emissões de gases de efeito estufa em nível global, ou seja, nessa crise eles são vítima e algoz ao mesmo tempo.

Um sistema projetado para que dependamos dele

A dependência dos combustíveis fósseis não é acidental. Os governos e as instituições financeiras empurraram agricultores e agricultoras para a produção de cultivos básicos para exportação com uso de agroquímicos que são fabricados a partir de combustíveis fósseis. Hoje em dia, os governos gastam cerca de 800 bilhões de dólares por ano12 para subsidiar essa agricultura de uso intensivo de produtos químicos, enquanto a agricultura sustentável recebe apenas uma fração desses recursos de apoio.13 Os lobistas corporativos, além disso, destinam centenas de milhões para que isso não mude.

Quem se beneficia das crises energéticas e alimentares?

O lobby europeu destina pelo menos 343 milhões de euros por ano, e, desde 2020, as empresas do setor fóssil e do agronegócio aumentaram seus gastos nesse tipo de atividade de pressão. Empresas como Shell e Bayer fazem a mesma jogada: atrasar a tomada de medidas, enfraquecer as regulamentações, proteger os lucros.

Esse sistema dependente dos combustíveis fósseis é enormemente lucrativo para poucas corporações: são um punhado delas que controlam como os alimentos são produzidos, transportados e vendidos. Elas fixam o preço; nós não temos outra alternativa a não ser pagá-lo. E quando a crise se desencadeia, elas se aproveitam do caos.14

Durante a Covid-19 e a guerra contra a Ucrânia, as principais empresas de fertilizantes aumentaram os preços muito acima dos custos reais.15 As dedicadas ao comércio de grãos, à produção de alimentos e ao varejo fizeram o mesmo.16 Nos Estados Unidos, 54% do aumento dos alimentos entre 2020 e 2021 se deveu à especulação corporativa17. Em plena crise do preço dos alimentos, enquanto as famílias têm dificuldade para pagar a comida, essas corporações registraram lucros recordes.

Trata-se de três problemas que se alimentam mutuamente: a dependência dos fósseis cria vulnerabilidade diante dos impactos; o caos climático gera escassez de alimentos; e a concentração corporativa permite que as empresas explorem ambas as circunstâncias em benefício próprio. Romper com esse ciclo implica reconfigurar a maneira como cultivamos, processamos e consumimos os alimentos.

Um sistema alimentar melhor e mais acessível já está criando raízes

É possível construir outro sistema alimentar, um que seja resistente a impactos, que proteja o clima e esteja a serviço das pessoas e não dos lucros das empresas. Em todo o mundo — de Cuba18 à Índia19 ou França20 — milhões de pessoas que se dedicam à agricultura já fizeram a transição para a agroecologia, uma prática sustentável que não depende de combustíveis fósseis nem de insumos químicos, mas que, ao contrário, aumenta a fertilidade do solo de maneira natural. Com essa técnica, cultivam-se feijões que melhoram o solo, faz-se rotação de culturas e compostagem dos resíduos em vez de comprar produtos químicos.

De acordo com diferentes estudos21, a produção agroecológica iguala ou supera os rendimentos convencionais,22 pode ser lucrativa para quem a pratica23 e alimenta melhor as comunidades.24 Embora essa transição leve tempo e exija apoio, ela permite que os sistemas agrícolas resistam melhor ao impacto dos preços. Também fica claro que a transição é necessária para enfrentar a crise climática. As soluções existem; o que falta é vontade política.

O que os governos devem fazer agora mesmo

Enquanto se constrói um sistema alimentar melhor para o futuro, os governos já dispõem das ferramentas para tornar os alimentos mais acessíveis. Eis o que deveriam fazer:

  • Cobrar impostos das corporações que se beneficiam das crises. Os impostos extraordinários sobre as empresas de combustíveis fósseis e do agronegócio poderiam reduzir imediatamente os custos para quem consome e quem produz alimentos.
  • Acabar com os subsídios que nos condenam à dependência. Deve-se frear a entrega de bilhões em subsídios às corporações fósseis e à agricultura de uso intensivo de agroquímicos, e redirecionar esse dinheiro para as energias renováveis e a agricultura sustentável.
  • Investir em sistemas alimentares locais e regionais que não dependam das extensas e frágeis cadeias de suprimento, vulneráveis a impactos, como se explica no relatório Alimentos com os pés no chão.

Se queremos estabilizar os preços dos alimentos, eles não podem continuar dependendo dos combustíveis fósseis. Caso contrário, continuaremos sentindo cada nova crise no bolso.

Pôr fim à dependência fóssil não é apenas uma questão climática: está em jogo o custo do que comemos. Os governos não mudarão de rumo a menos que assim o exijamos.

Título original: «De nuestro bolsillo: el costo real de los combustibles fósiles en los alimentos».

Para 350.org


Publicado na Agência Tierra Viva

  1. https://uk.finance.yahoo.com/news/food-price-shock-countries-hit-130000481.html ↩︎
  2. https://www.cnbc.com/2025/12/18/cumulative-inflation-since-2020.html#:~:text=%22We’re%20all%20comparing%20our,the%20five%20years%20before%20that. ↩︎
  3. https://uk.finance.yahoo.com/news/food-price-shock-countries-hit-130000481.html ↩︎
  4. https://ipes-food.org/wp-content/uploads/2025/09/DelCombustibleALaMesa.pdf ↩︎
  5. https://www.reuters.com/business/energy/oil-prices-stay-elevated-across-iran-war-scenarios-2026-03-27/ ↩︎
  6. https://www.cnbc.com/2026/03/25/fertilizer-price-iran-war-food-security-inflation-urea-potash-nitrogen-farmers.html ↩︎
  7. https://www.congress.gov/crs-product/R45281 ↩︎
  8. https://www.dw.com/en/after-the-iran-war-how-fast-could-global-trade-recover/a-76526954 ↩︎
  9. https://openknowledge.fao.org/items/4b1f7d26-267d-4a81-aed4-4f9de4d93f85 ↩︎
  10. https://www.fao.org/publications/fao-flagship-publications/the-state-of-food-security-and-nutrition-in-the-world/en ↩︎
  11. https://www.theguardian.com/environment/ng-interactive/2025/dec/18/how-climate-breakdown-is-putting-the-worlds-food-in-peril-in-maps-and-charts ↩︎
  12. https://www.oecd.org/en/publications/agricultural-policy-monitoring-and-evaluation-2024_74da57ed-en.html ↩︎
  13. https://online.ucpress.edu/elementa/article/13/1/00026/212292/Financing-agroecological-transformations-for ↩︎
  14. https://scholarworks.umass.edu/server/api/core/bitstreams/669e543e-5b6f-44c7-a657-641e024740ee/content ↩︎
  15. https://www.iatp.org/corporate-cartel-fertilises-food-inflation#:~:text=Vous%20pouvez%20lire%20la%20mise,a%20massive%2036%25%20in%202022. ↩︎
  16. https://eu.boell.org/en/2023/08/23/profiting-crisis-while-food-prices-rise ↩︎
  17. https://www.epi.org/blog/corporate-profits-have-contributed-disproportionately-to-inflation-how-should-policymakers-respond/ ↩︎
  18. https://www.biovision.ch/story/cubas-agroecological-revolution/ ↩︎
  19. https://www.tandfonline.com/doi/full/10.1080/03066150.2024.2445650 ↩︎
  20. https://hal.science/hal-04603950v2/file/%5BBiovall%C3%A9e_synth%C3%A8se_JD%5D%20Transition%20agro%C3%A9cologique-V2.pdf ↩︎
  21. https://www.nature.com/articles/s41893-022-00911-x ↩︎
  22. https://link.springer.com/article/10.1007/s00267-023-01816-x ↩︎
  23. https://www.agroecology-europe.org/wp-content/uploads/2024/03/Mouratiadou-Wezel-et-al-2024-Socioeconomic-performance-of-agroecology.pdf ↩︎
  24. https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S221191242100050X ↩︎

Leave a Comment