Posted on: 30 de outubro de 2020 Posted by: Mariana Tum Comments: 0

Por Mariana Cruz e Taís de Carvalho

A pisada do povo em marcha, o rumor das sementes se espraiando no chão, o barulho das formigas atiçadas no formigueiro. Vocês estão ouvindo? Muito da laboriosa parceria entre povos e terra se dá em silêncio. O cultivo das liberdades das gentes e dos territórios se faz com ação: às vezes, isto significa estar com as mãos, os pés e os ouvidos fincados na terra; às vezes, é escutar as palavras-rastro que deixaram as pessoas que lutaram antes. Vocês estão ouvindo?

Os ecos agora vêm da aldeia Tukun, esta que é uma entre 23 do território Tupinambá de Olivença, Bahia. Entre os dias 24 e 26 de setembro de 2020, mais de 50 jovens compareceram ao mutirão de plantio que marcou a realização da Pré-Jornada de Agroecologia da Teia dos Povos. A atividade foi uma entre as várias ações que integraram a 20ª edição da Caminhada do Caboclo Marcelino, referência da luta por terra e território na região. Neste texto, acompanharemos o rastro da pisada firme do povo em sua jornada de luta por terra, autonomia e soberania alimentar. 

Uma jornada dentro de outra maior

A história dos Tupinambá de Olivença muito se assemelha a de outros povos indígenas no Brasil: história de luta e resistência. Frente aos processos de colonização, “cidadanização” e “modernização”, o que se tem é que a violência e os ataques às sociedades indígenas nunca cessaram. Em contraposição à ideia de um projeto colonizador que se pensou consolidado e se fez vencedor, os Tupinambá encontram-se de pé, no litoral e serras do sul da Bahia. Sua resistência é histórica, como reforça Nádia Akauã Tupinambá, liderança indígena, mestra cuidadora e guardiã das sementes e saberes ancestrais:

“A gente já passou historicamente por várias tentativas de dizimação. O nosso povo é um povo guerreiro, é um povo que resiste. É um povo que tá desde o início, desde a invasão desse país. É o primeiro povo a ter contato”.

O longo contato interétnico trouxe aos Tupinambá uma tradição de luta. Muitos foram os mecanismos de expropriação fundiária e tentativas de expulsão de suas terras, como é o caso da troca ou venda desigual ou compulsória por meio de ameaças e endividamentos, por exemplo. No entanto, os Tupinambá permaneceram e resistiram em seus territórios, outros adentraram mais para o interior das matas, se refugiaram nas serras, outros se deslocaram para áreas urbanas, regiões vizinhas ou outros estados. 

Mobilizados em ações coletivas, os Tupinambá retomaram áreas tradicionalmente ocupadas, enfatizando a autonomia dos povos sobre seus territórios através da autodemarcação. Os processos de retomada fizeram com que muitos retornassem ao território. Uma história de luta e resistência que continua e é levada a frente por mais de 5000 indígenas em 23 comunidades.

Todos os anos, desde 2001, no último domingo de setembro, os Tupinambá realizam a Caminhada em Memória aos Mártires do Massacre do Rio Cururupe. Várias comunidades se reúnem em Olivença (Aldeia Mãe e antigo aldeamento) e fazem a caminhada até o Cururupe. A Caminhada remete a dois eventos históricos: a chamada “Batalha dos Nadadores”, de 1559, vista pelos Tupinambá como massacre (e não batalha), pois culminou com a morte de milhares de indígenas cujos corpos foram expostos em cerca de uma légua (o que equivale a aproximadamente 6 quilômetros), onde é realizada a Caminhada; e a “Revolta de Marcelino”, que é referência de luta e resistência para os Tupinambá de Olivença por fazer frente às lutas contra a expropriação de suas terras.

Marcelino era indígena, morador de Olivença e liderou uma revolta em 1929 contra a construção da ponte sobre o rio Cururupe, que pretendia facilitar o acesso de Ilhéus à Olivença, o que também significava a intrusão de não-índios no território. Marcelino e seus companheiros foram perseguidos e presos sob a justificativa de combate ao comunismo. Em 1937, Marcelino retorna a Ilhéus já em liberdade e ao se apresentar às autoridades foi informado que sua vida corria perigo. Essa foi a última notícia sobre ele. Marcelino continua vivo na memória dos Tupinambá de Olivença. 

Se, ainda na primeira metade do século XX, pessoas como e com o Caboclo Marcelino lutavam por terra e território, o momento atual é de insistir nessa batalha. O avanço das forças capitalistas e colonialistas de destruição das matas, das águas e das identidades se combate com um projeto outro de vida, cultivado há tempos por povos indígenas, quilombolas e camponeses. Cacique Ramon destaca: 

“Estamos dando continuidade a esta missão de construir esse nosso bem viver para todos coletivamente e de forma respeitosa com nossa floresta, com nossas águas e que assim a gente possa nos fortalecer enquanto Teia, enquanto pessoas dentro desse território e que assim a gente leve para outros parentes, outras comunidades, essa simbologia maior de poder estar reconstruindo nossa cadeia produtiva de forma orgânica, de forma que possamos pensar também numa saúde para o nosso povo e assim podermos caminhar nessa grande jornada, nessa grande construção de vida para o nosso povo.”

Unir os povos e deixar de ser escravo

O bem viver de que nos fala Cacique Ramon está fundamentado na soberania dos povos sobre a terra, de modo a defendê-la da ganância daqueles que vêem mercadoria onde há fonte de vida. A boa vida também se planta na soberania do território, ou seja, na reconstrução das relações entre todos os seres que habitam a terra: pássaros, plantas, bichos do mato, cursos d’água, encantados e pessoas. Quando a vitalidade retorna para a terra, a abundância e a liberdade reais podem florescer.

Para a mestra Nádia Akauã, a atividade materializou os anseios mais imediatos de seu povo:

“Escolhemos fazer um mutirão. E a forma como foi feito é importante. Precisamos concretizar abundância na alimentação. Então, é preciso estar na terra produzindo. Precisamos focar na soberania alimentar, conscientizando as pessoas do lugar para dar essa continuidade. Temos nossas roças, nossos plantios, nossos cultivos, mas propomos fazer algo maior durante a pandemia, pensando em atender outras comunidades”

Por isso, a Pré-Jornada de Agroecologia na aldeia Tukun focou na construção de mais uma base para a multiplicação de sementes crioulas e árvores frutíferas adaptadas à Mata Atlântica. A abertura de roças de alimento e a constituição de sistemas agroflorestais são as estratégias concretas para reconstruir a riqueza e a autonomia dos povos e da natureza.

Autonomia, aqui, não é sinônimo de isolamento ou qualquer uma das imagens insulares de auto-suficiência que ainda deixam suas pegadas no solo das utopias que cultivamos. Ao contrário, a autonomia reflete a intensa e multifacetada aliança entre povos, materializada na circulação dos frutos de seus conhecimentos e trabalhos. 

Na manhã do dia 24 de setembro, um caminhão da Teia dos Povos chegou à aldeia trazendo mudas e sementes crioulas cultivadas no Assentamento Terra Vista. O cacau, a banana, o cupuaçu e o açaí somam-se ao aipim, ao milho, aos feijões e abóboras para integrar as já diversas roças da aldeia Tukun. Quando chegar o momento da colheita, os frutos servirão de alimento para esta e outras comunidades na região. 

Não se trata, porém, de doação. A palavra que melhor descreve este processo é, novamente, autonomia. A parceria, segundo mestre Joelson, é “carro vem, carro vai”. O que veio do Terra Vista, quando frutificado, irá a outras paragens, fazendo proliferar soberania alimentar, econômica e territorial e, assim, tecendo as relações de que dependem a liberdade:

“Nós precisamos botar na nossa cabeça: nosso povo precisa estar unido. Não dá para o nosso povo estar disperso e continuar escravo. Nós não nascemos pra ser escravo, nós nascemos dentro da floresta pra ser livre como os pássaros, como os animais. Então, nós não podemos ser escravos”. 

Esse é o fio que tece a liberdade desde muito tempo. Lá atrás, nesse mesmo território dos Tupinambá de Olivença, em 1559, os povos pretos se uniram aos indígenas em um grande cerco à sede da Capitania. Assim se fez e tem sido feito o caminho de aliança dos povos. Garantir a defesa das terras, por um lado, e garantir a vida no território, por outro, é tarefa que se faz junto.

Estrada estreita, pisada firme

O mutirão realizado em setembro na aldeia Tukun não teve início numa manhã de quinta-feira e não findou numa noite de sábado. A atividade compõe a longuíssima jornada de luta pelo bem viver, como atestou Cacique Ramon. Sua construção está fundamentada na soberania alimentar, como lembrou a Mestra Nádia Akauã. E este é um projeto de longo prazo. Antes da primeira colheita, há muito caminho a se percorrer. A pisada é firme, ritmada e circular, feito poranci. É bem possível que, enquanto vocês lêem esse texto, os maracás e as enxadas estejam marcando o compasso de outras atividades da Teia nesse território, cultivando troca de conhecimentos e trabalho partilhado.

As pontes construídas entre os territórios indígenas, as áreas de reforma agrária, os terreiros, os quilombos, as comunidades pesqueiras e marisqueiras, as periferias são feitas de matéria distinta daquela contra a qual lutou Caboclo Marcelino. Esta última propunha abrir caminho para o ruído das escavadeiras, das moto-serras, dos tratores e das palavras vazias do “desenvolvimento”. Atividades como a narrada neste texto, ao contrário, são como picadas abertas na mata. Mestre Joelson confirma: “A batalha é assim, é uma estrada estreita. Sabemos que tem muita dificuldade para a gente caminhar, por isso a gente tem que se unir”.  

A marcha inexorável do suposto progresso pode ser ensurdecedora. Dentro da mata, por sua vez, o silêncio se atesta pelo canto dos pássaros, estes cuja liberdade é inspiração. Vocês estão ouvindo? 

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