Na última quarta (27), a Câmara dos Deputados ratificou a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que propõe o fim da escala de trabalho 6×1 – aquela que concede apenas um dia de descanso semanal. Foram 461 votos a favor e apenas 19 contra no segundo turno. A proposta, que segue para o Senado, reduz a jornada semanal sem redução salarial e amplia o direito ao descanso.
A aprovação recoloca no centro do debate uma ideia que o marxista franco-cubano Paul Lafargue, genro de Karl Marx, já defendia em 1880 no panfleto O direito à preguiça: os trabalhadores têm o direito de serem preguiçosos. Na época, Lafargue atacava a plenos pulmões o “amor ao trabalho”, que descrevia como “uma aberração mental”. Hoje, a vitória da PEC 6×1 no Brasil mostra que a mesma aberração ainda precisa ser combatida.
Lafargue propunha algo simples e revolucionário: trabalhar apenas três horas por dia, deixando as máquinas realizarem o resto. Ele não era um ludita – o ludismo foi um movimento de trabalhadores ingleses do ramo de fiação e tecelagem, ativo no início do século XIX, nos primórdios da Revolução Industrial, e que se notabilizou pela destruição de máquinas como forma de protesto; criticava a superprodução que enriquece o capital enquanto empobrece os trabalhadores. “Todos os nossos produtos são adulterados para facilitar o seu escoamento e abreviar a sua existência”, escreveu – uma frase que poderia descrever a obsolescência programada de hoje.
No Brasil de 2026, a escala 6×1 representa exatamente o oposto do que Lafargue sonhava. São seis dias de trabalho para um de descanso – jornadas exaustivas que levam a adoecimento físico e mental, impossibilitando o convívio, o lazer, o estudo e a organização coletiva. O movimento “Vida Além do Trabalho” (VAT) , iniciado pelo ex-balconista de uma farmácia Rick Azevedo, denunciou essa exaustão nas redes sociais e transformou uma reclamação individual em pressão social organizada. Sindicalistas e movimentos populares levaram às ruas a exigência de uma vida para além do trabalho.
Hoje, a escala 6×1 cai por pressão da classe trabalhadora, não por generosidade patronal. A vitória foi uma conquista construída por essa mobilização. E conecta-se diretamente à intuição de Lafargue de que a moral burguesa transforma o trabalho num fetiche. Como observa o artigo da Jacobin,1 seu texto mantém uma energia visceral e uma imediaticidade cativante exatamente porque não pede permissão para atacar a lógica que troca vida por lucro.
Defender o direito ao descanso é defender o direito à preguiça – no sentido mais nobre que Lafargue deu à palavra: tempo para existir, para criar laços, para fazer arte, para cuidar dos outros e de si. O fim da escala 6×1 mostra que direitos trabalhistas seguem sendo resultado direto da mobilização popular. E recoloca uma pergunta incômoda: por que parar em dois dias de descanso, se Lafargue já sonhava com três horas diárias de trabalho?
A PEC segue para o Senado. Mas a luta – a verdadeira – é contra a ideia de que nossa vida inteira deve ser consumida pelo trabalho. Como dizia Lafargue: “Ninguém quer mais trabalhar!” – e isso, para a classe trabalhadora, não é um problema. É uma solução.
