Posted on: 26 de novembro de 2021 Posted by: Teia dos Povos Comments: 0

Por Pedro Manzur

Cunhado e cunhada. 23 e 28 anos. Moradores da comunidade Diadema Kalunga, em Teresina de Goiás, nordeste goiano, cerrado. O capital e o latifúndio agiram muito perversamente por aqui. Alijaram suas famílias do acesso à educação, à saúde, ao transporte, à cultura, à organização política e, até mesmo, de suas identidades e raízes pretas e quilombolas, de seu orgulho de serem quem são, de virem donde vieram, de viverem como vivem. Há, ainda, um processo de alijamento de seus saberes tradicionais e da terra. Mas eles ainda resistem, muitas vezes sem saber, por meio desses saberes. Mire e veja.

Marcos e Maria iam de longe aprender no Assentamento Terra Vista. Na estrada, ansiosos, treinavam com dificuldade as palavras novas: “agroecologia”, “bioconstrução”, “agrofloresta”. Não conheciam a Teia dos Povos, nem o MST, nem povos indígenas, nem outros povos quilombolas. Na chegada, apresentaram a eles o assentamento: a escola, a fábrica, a floresta, o espaço de reuniões comunitárias.

– Reuniões comunitárias?
– Sim, é onde nos reunimos coletivamente para tomar decisões em conjunto – respondeu a companheira assentada.
– Uar, nós precisamos começar a fazer isso lá também!

Mire e veja.

Mestre Joelson abriu a formação revolucionariamente: “não seguiremos o tempo britânico, o tempo dos colonizadores. Seguiremos o tempo da liberdade”. E, como em todo começo de curso, os alunos tiveram a oportunidade de se apresentar, um a um.

– Sou profissional X.
– Sou estudante de Y.
– Sou dirigente de um movimento Z.
– Sou A, estudante de B e dirigente de C.

Entre tanto letramento, os companheiros Kalunga se apresentaram com timidez:

– Eu sou Marcos de Teresina de Goiás.
– Eu sou Maria Luísa de Teresina de Goiás.

Logo após, confidenciaram:

– Esse trem vai ser difícil pra nós. Os povo aqui é tudo estudado, tudo é alguma coisa. Nós num tem estudo, nós num é nada…

(Perguntei-me até que ponto, nós, alunos tudo estudado, achamos lindo seguir o tempo da liberdade, mas nos apresentamos seguindo os rótulos do colonizador)

Mire e veja: “Não convém fazer escândalo de começo. Só aos poucos é que o escuro é claro”.

No dia seguinte, sério e concentrado, o Professor Edson, assentado, dava aula sobre poda. Era a primeira vez que Maria Luíza, com a barriga de 5 meses, via um pé de cacau na vida. Os colegas se revezavam sob as orientações de Edson aprendendo a manejar o facão. Maria se voluntariou e podou com a ferramenta. Prof. Edson não acreditava na destreza:

– Não é possível! Você já trabalhou com cacau antes?
– Eu não! – ria desferindo os golpes.
– Já sim! Você que não quer falar!
– Eu não! É a primeira vez, homem! Mas nós trabalha muito com facão lá na roça de casa.

Edson continuou a elogiar, e, ali, nasceu uma amizade que dura até hoje.

Mire e veja: quem não tinha estudo, agora era aluna destaque da classe.

Marcos chegou do final do primeiro dia na oficina de bioconstrução:

– Ninguém lá sabia usar a motosserra, só eu.

Marcos chegou do final do segundo dia na bioconstrução:

– Hoje fiz tijolo de adobe lá pro professor Raphael. Amanhã ele disse que eu que vou dar aula de adobe.

Marcos chegou do final do terceiro dia na bioconstrução:

– Hoje eu fui professor lá!

Os colegas de curso agora o chamam de “professor” na fila do almoço.

Mire e veja: quem não era nada, agora era professor daqueles povo tudo estudado.

No corredor, na fogueira e na roda de capoeira, Marcos e Maria eram indagados sobre como era nos Kalungas: a cultura, o trabalho, a música, a dança, a vida. Descobriram que não é fácil dizer do que simplesmente se é. Mas aprenderam que é importante aprender a dizer, ainda mais, quando se é: valorizado. Aprenderam a se reconhecer entre tantos outros povos de luta que se conhecem e reconhecem. Mire e veja.

Marcos e Maria não só aprenderam em Terra Vista, eles redescobriram o que já sabiam. E muito.

Na estrada de volta, Marcos soltou: “agora final de semana eu não vou ficar parado não! Todo final de semana eu vou inventar alguma coisa”.

E fizeram, ali, uma lista das iniciativas que vão implementar na comunidade a partir das vivências na formação:

  • Organizar cooperativa de trabalho e mutirões;
  • Organizar reuniões coletivas;
  • Ampliar horta orgânica;
  • Construir viveiro de mudas;
  • Coletar sementes para viveiro, comercialização e artesanato;
  • Fazer um galinheiro coletivo;
  • Aplicar o SAF nas roças da família;
  • Organizar mutirões de construção e reforma de habitações;
  • Construir um espaço educacional;
  • Comercializar produtos medicinais tradicionais;
  • Fazer rodas de capoeira;
  • Resgatar a dança tradicional Sussa em festas e ensinar os mais novos;
  • Auxiliar outras comunidades da região que tenham interesse em implementar processos semelhantes.

Mire e veja: quem não era nada, agora é: aluno destaque, professor, bioconstrutor, horticultor, trabalhador rural, inventor, líder comunitário… e exemplo.

Marcos e Maria são exemplos da potência que tem a articulação entre os povos. A formação em agroecologia da Teia proporciona à comunidade da Diadema Kalunga algo que nenhuma estrutura estatal e/ou capitalista teria a mínima possibilidade de fazer: eles miraram e viram. Aprenderam na terra, que é seu lar e fonte de vida. Puderam escolher o que aprender. Puderam se enxergar aprendendo, aprender ensinando, e se enxergar ensinando. Puderam interagir e trocar com colegas e mestres que são como eles, que são: eles.

A união dos povos por terra e por território é a re-união consigo, por si e pelos seus. Penso que, qualquer outro curso que não viesse de uma fonte minimamente revolucionária, como a Teia, buscaria “transformar” jovens como Marcos e Maria. A formação da Teia dos Povos, não. Essa formação permitiu que eles se re-encontrassem com suas essências. Sentiram-se parte de algo maior, algo que se conecta com quem eles são, com a vida que levam, com sua ancestralidade, seus medos e suas querências.

Viram que é possível.
Puderam tocar e sentir o sonho em processo de materialização.
Mire e veja: “um sentir é do sentente, outro é do sentidor”.
O povo, aqui, agora, quer as soberanias:
alimentar, hídrica, econômica, pedagógica e energética.

Foram de longe ensinar: Marcos e Maria Luíza.


Nota 1: Marcos e Maria Luíza leram este texto na íntegra e aprovaram sua publicação.

Nota 2: Os Kalunga são hoje mais de 10 mil pessoas que habitam 39 povoados autônomos reconhecidos, distribuídos em três municípios do nordeste goiano: Cavalcante, Teresina de Goiás e Monte Alegre. As colocações neste texto em relação ao povo Kalunga são relativas unicamente à comunidade da Diadema Kalunga, mais especificamente ao território em que habita a família de Marcos e Maria Luíza, e não representam os povos Kalunga como um todo. Para mais informações, a Associação Quilombo Kalunga (AQK) é responsável pela gestão de assuntos gerais relacionados ao território Kalunga.

Nota 03: Citações são de João Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas.

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