Quando os portugueses começaram a ocupar o litoral do que hoje chamamos de sul da Bahia e Espírito Santo, encontraram territórios já habitados por diferentes povos indígenas. A instalação de vilas, fazendas, engenhos e missões não aconteceu de forma pacífica. A expansão colonial significava também a tomada de terras, a escravização de indígenas e a tentativa de controlar populações que não aceitavam aquele avanço.
É nesse contexto que aparece o que a historiografia chama de Guerra dos Aimorés, geralmente situada entre 1555 e 1673. O conflito envolveu principalmente áreas das capitanias de Porto Seguro, Ilhéus e Espírito Santo e reuniu diferentes momentos de enfrentamento entre os povos indígenas e os colonizadores portugueses.
Mas quem eram, afinal, os chamados Aimorés?
O nome exige cuidado. “Aimoré” não deve ser entendido simplesmente como uma etnia única e homogênea. Era uma denominação utilizada pelos colonizadores para diferentes grupos indígenas considerados inimigos da ocupação portuguesa. Estudos recentes mostram que a categoria foi utilizada em contextos diversos e que, posteriormente, alguns desses grupos foram relacionados aos chamados Botocudos e aos Borum.
Essa forma de nomear também revela quem escreveu a história.
Boa parte dos registros sobre os Aimorés foi produzida por portugueses, missionários e autoridades coloniais. Neles, os indígenas aparecem frequentemente descritos como “bárbaros” ou como uma ameaça às povoações. Mas, por trás desses relatos, existe outra história: a de povos que reagiam à invasão de seus territórios.
Em 1553, por exemplo, registros históricos apontam que os Aimorés atacaram e incendiaram a Vila de Nossa Senhora da Pena, em Porto Seguro. O próprio Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) registra que a capitania passou, naquele período, por uma série de conflitos e ataques atribuídos aos Aimorés.
Poucos anos depois, em 1557, aconteceu um dos episódios mais conhecidos desse período: a Batalha do Cricaré, no Espírito Santo.
Fernão de Sá, filho do governador-geral Mem de Sá, comandou uma expedição contra indígenas da região. As tropas portuguesas chegaram ao local e encontraram os indígenas organizados em fortificações. Depois de horas de combate, os portugueses recuaram e Fernão de Sá morreu durante a batalha. A resistência indígena conseguiu impedir o avanço daquela expedição.
O episódio ajuda a entender que a resistência não acontecia apenas por meio de confrontos diretos. O conhecimento do território também era uma forma de defesa.
As matas, rios e caminhos conhecidos pelos povos indígenas dificultavam a movimentação das tropas coloniais. Os próprios relatos portugueses registram a dificuldade de enfrentar grupos que conheciam profundamente aqueles espaços. Séculos depois, esses documentos continuam sendo importantes justamente porque, mesmo escritos pelo lado colonizador, acabam revelando a força da resistência encontrada.
A situação se agravou com a expansão econômica da colônia.
Na Capitania de Porto Seguro, os colonizadores buscavam ampliar a produção e ocupar novas áreas. Ao mesmo tempo, expedições avançavam para o interior em busca de riquezas e de indígenas que pudessem ser escravizados. Pesquisas recentes sobre a região mostram que, entre o final do século XVI e a primeira metade do XVII, os Aimorés continuaram desempenhando um papel importante nas disputas políticas, econômicas e religiosas da capitania.
Os ataques atribuídos aos Aimorés chegaram a afetar diretamente a economia colonial. Um relato de Gabriel Soares de Sousa, citado em estudos recentes, descrevia as capitanias de Porto Seguro e Ilhéus como profundamente afetadas pelos conflitos, com engenhos paralisados e populações abandonando determinadas áreas.
Mas dizer apenas que os Aimorés “atacavam os portugueses” deixa metade da história de fora.
Antes dos ataques havia a ocupação. Havia a entrada de colonos em territórios indígenas. Havia a escravização e as tentativas de catequese. Havia a transformação das terras em propriedades coloniais.
A chamada guerra, portanto, não pode ser separada do processo de colonização.
E ela também não foi uma guerra contínua durante 118 anos. O período de 1555 a 1673 reúne diferentes ciclos de conflito, expedições, deslocamentos, alianças e negociações. Existem, inclusive, registros coloniais de momentos em que os portugueses tentaram estabelecer acordos de paz com grupos identificados como Aimorés.
Um desses relatos, escrito por Frei Vicente do Salvador no século XVII, descreve os confrontos e posteriormente narra uma tentativa de aproximação entre portugueses e grupos indígenas. A própria narrativa mostra como a guerra também era acompanhada por estratégias de negociação, catequese e tentativa de incorporação dos indígenas à ordem colonial.
É importante lembrar que essas fontes precisam ser lidas com cuidado. Quando um cronista colonial chama os indígenas de “selvagens” ou descreve seus ataques como uma ameaça à civilização, ele está escrevendo a partir da perspectiva de quem pretendia ocupar aquele território.
A pergunta, então, precisa ser invertida:
ameaça para quem?
Para os portugueses, a resistência impedia a expansão das vilas, fazendas e engenhos. Para os povos indígenas, resistir significava defender os lugares onde viviam, circulavam e construíam suas próprias formas de existência.
Por isso, a Guerra dos Aimorés não é apenas uma história de batalhas entre portugueses e indígenas. É também uma história sobre terra, invasão e resistência.
E talvez seja justamente por isso que ela ainda precise ser contada.
Durante muito tempo, a história colonial apresentou os povos indígenas como obstáculos à ocupação portuguesa. Recuperar essas guerras a partir de outra perspectiva permite enxergar que, antes de serem considerados “inimigos” pelos colonizadores, esses povos já tinham seus próprios territórios, relações e formas de organização.
A colonização avançou sobre a terra. A resistência também. E os povos que os portugueses tentaram expulsar permaneceram na luta, defendendo seus territórios e escrevendo uma história que a colonização nunca conseguiu apagar.
Fontes
- SILVA, Matheus do Carmo Germano da; ARAÚJO, Érica Lôpo de. “Aimorés e Tupiniquins na Capitania de Porto Seguro: a participação indígena nos contextos econômicos e religiosos durante a União Ibérica (1580–1640)”. História Unicap, 2024.
- Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) — histórico da
Capitania de Porto Seguro e dos conflitos envolvendo os Aimorés.
- Frei Vicente do Salvador, História do Brasil — relato colonial sobre a Guerra dos Aimorés e as negociações de paz.
- Atlas Digital da América Lusa / Universidade de Brasília — documentação histórica sobre os conflitos envolvendo os Aimorés.
