Posted on: 11 de novembro de 2020 Posted by: Teia dos Povos Comments: 2

Um manifesto sobre a campanha de solidariedade internacional à Rojava e contra a ocupação Turca, na semana de 1 a 8 de Novembro. 

#Riseup4Rojava #RiseupAgainstFascism
Artes: @coletivopingapinga


Desde 2012, curdas e curdos iniciaram uma revolução social no norte da Síria, em busca de sua autonomia coletiva enquanto povo. No Brasil, foi muito divulgada como uma luta inspiradora por organizações, movimentos e pessoas que se identificam ideologicamente com a luta, principalmente libertários (as). Mas solidariedade não pode ser apenas na ideologia, abstrata. Ela tem que fazer pontes, ser real e concreta, ver as ameaças e destinos comuns que estão submetidas. O próprio Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), protagonista dessa transformação junto com a União das Comunidades do Curdistão (KCK), se valeu desse tipo de solidariedade, lutando e treinando guerrilheiros (as) junto a palestinos (as) contra o Estado de Israel no Líbano em 1982, mas também construindo o Confederalismo Democrático no nordeste da Síria com armênios, assírios e árabes de diferentes religiões. Pensando nessa solidariedade com pontes, vários fundamentos das lutas de lá estão presentes nas lutas daqui, da autodeterminação dos povos indígenas e comunidades tradicionais, na luta das mulheres, nas lutas por transporte público, moradia, pelos territórios periféricos nas cidades e contra o genocídio. É uma perspectiva de luta conjunta que não conhece as fronteiras do Estado-nação, a aliança entre os povos tão diversos num mesmo Estado-nação, a luta pelos territórios, pela libertação das mulheres, ecologia desde baixo e pela autogestão.
Ainda relativamente pouco conhecida (ou ignorada?) fora dos círculos mais libertários,  o pensamento político da luta curda, traduzido em textos fundamentais como os de Abdullah Öcalan, assinala a urgência de uma crítica radical ao Estado-Nação como provedor da autodeterminação de povos minoritários, a exemplo dos que se encontram pressionados pela escalada dos conflitos no chamado Oriente Médio, trágico legado dos longevos interesses do capital na região. Ao colocar em questão os pilares do Estado-Nação — o nacionalismo, a ciência positivista, o sexismo e a religiosidade — a defesa do Confederalismo Democrático como “paradigma social não-estatal” aponta a falência do modelo de controle da ordem internacional atualmente vigente, pela incapacidade de oferecer aos povos garantias efetivas de sua liberdade, e denuncia a sua cumplicidade com a submissão destes povos à ordem capitalista e sua democracia liberal.


O Estado Turco, na suas aventuras imperialistas no Oriente Médio e colonizadoras em seu próprio território, submeteu ao genocídio curdas e curdos – além de outras etnias – desde sua fundação, negando sua existência e as/os considerando como “turcos da montanha” , exterminando qualquer resistência. De maneira muito parecida ao Estado brasileiro – e piorado no atual mal governo daqui – com os povos negros e indígenas, até hoje a Turquia segue sua empreitada racista para matar e apagar a existência de curdas/os. Como a Usina Hidrelétrica de Belo Monte, que destruiu um cemitério Munduruku, uma barragem turca destruiu a cidade histórica de 12 mil anos, Hasankeyf, expulsando a população curda existente na região e afogando sua memória debaixo dágua. Como o “dia do fogo” feito pelas milícias do latifúndio com anuência do Estado brasileiro, o Estado Turco e, atualmente, em conjunto com as suas milícias similares ao Estado Islâmico (DAESH) usam o fogo como arma de guerra, queimando plantações populares e os ecossistemas existentes no nordeste da Síria, contra o projeto ecológico da revolução. Como nas periferias brasileiras onde o racionamento de água é cotidiano e o controle do acesso aos rios pelos grandes empreendimentos e latifúndio em comunidades tradicionais, após a invasão turca em 2018 e 2019 tornou-se comum a limitação da água nas regiões do nordeste da Síria – Rojava -, no momento de pandemia em que ela é mais necessária do que nunca. Os próprios curdas e curdos também entendem a si como povos indígenas das montanhas.
Num país como o Brasil, cujo território possui dimensões continentais e abriga as seculares consequências de um sistema baseado na exploração da terra, na expiação de povos nativos e na escravização de povos vindos de África, as provocações de Öcalan nos fazem duvidar ainda mais deste artifício de nação forjado para o gerenciamento dos interesses capitalistas, atualizados e reafirmados ao longo de quinhentos e vinte anos. Será mesmo o Estado-Nacional o único arranjo político possível para garantir a autodeterminação dos povos que aqui vivem? Que qualidade de democracia alcançamos com um federalismo ainda tão fragilizado, refém de conglomerados capitalistas, oligarquias regionais, mandonismo de base religiosa e grupos paramilitares ligados à extrema direita? Que qualidade de autodeterminação o povo brasileiro carrega neste século XXI, marcado por índices recordes de violência contra povos indígenas, negros e mulheres, além da destruição do meio ambiente e com ele, do modo de vida dos povos tradicionais como um todo? Que ruptura com essa ordem exploratória, expiatória, racista e misógina as esquerdas revolucionárias brasileiras tem conseguido propor? Se não conseguem, a que se deve isso? 
Tais questionamentos surgem com naturalidade quando os princípios do Confederalismo Democrático nos são apresentados na prática nesta luta pela autodeterminação do povo curdo. Uma autodeterminação que não só não concorre, como também se irmana à luta de armênios e palestinos e outras tantas minorias que coabitam a região; que apresenta como condicionantes para a emancipação as pautas da ecologia e da libertação das mulheres e que faz da autodefesa mais do que uma simples opção pela luta armada, mas um corpo firme cuja vitalidade se afirma no compromisso radical com a horizontalidade dos processos decisórios, que não apenas respeita a base das trabalhadoras e dos trabalhadores, mas cria condições efetivas de autogestão e autoorganização, passando ao largo dos vícios burocráticos, os quais, infelizmente tem assumido o caráter dos governos populares em outras partes do mundo.
Com a força dos tambores, maracás, dos cantos, da construção da autonomia no campo e na cidade, nas lutas por comida, água, terra, território, trabalho, transporte e moradia, saudamos a luta curda que cria um mundo novo em Rojava. Lutamos contra os mesmos inimigos, de diferentes fronteiras. Como o Confederalismo Democrático preconizava a união entre curdos, árabes, assírios, armênios de diferentes localidades e religiões, as revoltas do Brasil fizeram alianças preto, indígena e popular. Por isso, nossa solidariedade também deve ser aprendizado! #Riseup4Rojava, contra a ocupação Turca, desde as lutas no Brasil!

*Manifesto de apoiadores da luta de Roja. A Teia dos Povos é solidária a todo povo em luta rebelde por sua emancipação contra o imperialismo!

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  1. Gostei muito do e do olhar que vc traz sobre essa luta curda . Eu tenho lido sobre o movimento de mulheres que tem foto a revolução a jinealogia . Inspirador , e importante que as nações deem voz ao movimentos minoritários.

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