por Silvia Beatriz Adoue
São Paulo, 19 de abril de 2026
Amar o campo, ao fazer a plantação,
não envenenar o campo é purificar o pão.
Amar a terra, e nela plantar semente,
a gente cultiva ela, e ela cultiva a gente.1
José Pinto
O risco que corre o pau, corre o machado.
Não há o que temer.
Aqueles que mandam matar, também,podem morrer.2
Dois dias atrás, 17 de abril, fez 30 anos do massacre de Eldorado dos Carajás, no Pará. A repressão policial à caminhada dos sem terra deixou 21 mortos. Entre eles, o jovem Oziel Alves Pereira, que foi golpeado no asfalto, a coronhadas, até a morte, enquanto a polícia o desafiava a gritar palavras de ordem do movimento. Os 150 policiais chegaram no local em ônibus patrocinados pela mineradora Vale. E a justificativa da repressão era que precisavam liberar a estrada. A caminhada, parece, atrapalhava o progresso. Atrapalhava o escoamento das mercadorias. O episódio comoveu o país, atraindo o apoio das gentes das cidades para a reforma agrária. O coronel Mário Colares Pantoja e o major José Maria Pereira Oliveira foram condenados em processo judicial posterior. Apesar do coronel ter sido condenado a 280 anos de prisão, cumpriu apenas 4 anos em regime fechado. O major foi condenado a 158 anos de prisão, cumpriu apenas 6 e agora está em regime de prisão domiciliar.3
Durante a ditadura, a assim chamada “revolução verde”, que introduziu tecnologias de mecanização e venenos na agricultura, especialmente para o cultivo de soja para exportação, destruiu a economia dos pequenos agricultores do sul, que, endividados, perderam a terra para os bancos. O governo procurou descomprimir a demanda para recuperá-la com programas de colonização na região amazônica. O que propiciou o deslocamento de famílias sem condições de praticar o mesmo manejo dos cultivos do sul e sem possibilidade de retorno. Esses migrantes serviriam como força de trabalho disponível para os grandes empreendimentos pecuários e mineiros na região. Os migrantes do sul se entrelaçariam com os caboclos da Amazônia num aprendizado comum.4
Foi assim que se estendeu por vários territórios uma rede de vasos capilares que dariam forma ao novo ciclo de luta pela terra, conformando o Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra. Sob o lema “Reforma agrária,/ na lei ou na marra”, aconteciam ocupações por todo Brasil. Com a passagem do governo das mãos militares para as civis e com a promulgação de uma nova constituição, em 1988, que tornava a reforma agrária possível “na lei”, o grande movimento de ocupações de terraalimentou a esperança de que um “governo popular”, ou um “governo de esquerda”, apoiado na constituição, mudaria a estrutura agrária do país.
Apesar do grande apoio que essa aspiração conseguiu em 1996, e com a chegada do governo do Partido dos Trabalhadores, os sucessivos mandatos progressistas não avançaram na aplicação da reforma agrária. As ocupações foram se ralentando na espera da iniciativa do governo, que justificava sua paralisia com o argumento de uma “relação de forças” desfavorável, ao mesmo tempo em que distribuía subsídios entre os grandes produtores de commodities de exportação. Na prática, as iniciativas dos governos progressistas faziam pender a tal de “relação de forças” para o grende agronegócio e as cadeias de exportação.
Passaram-se 30 anos do massacre de Eldorado dos Carajás e o sangue camponês (e quilombola, e indúgena) continua regando a terra. A cada 17 de abril, um desejo nem sempre confessado rebrota nos corações: o de “correr a cerca”, que é a única forma de melhorar a “relação de forças”, ocupar as terras “na marra”, para protegê-las do afã destrutivo do agronegócio e a mineração. A terra é para viver e se alimentar. É a dívida que temos para com Oziel, os 21 de Eldorado e tantos compas caídos na luta.
