Posted on: 24 de junho de 2026 Posted by: Teia dos Povos Comments: 0

por Xiomara Claribel Ajín

Originalmente publicado em: https://prensacomunitaria.org/2026/06/donde-las-semillas-guardan-la-memoria-de-los-pueblos/ e https://desinformemonos.org/donde-las-semillas-guardan-la-memoria-de-los-pueblos/

Cada semente era um pequeno livro escrito por gerações que aprenderam a conversar com a chuva, a ler o comportamento dos solos e a distinguir qual planta resistia a uma seca ou a uma praga.

Por Xiomara Claribel Ajín

A primeira coisa que me chamou a atenção foi o silêncio.

Não era o silêncio de um quarto vazio, mas o de um lugar onde a vida se protege com paciência. Mal atravessei a porta do Banco de Sementes do Instituto Mesoamericano de Permacultura (IMAP), em San Lucas Tolimán, Sololá, senti que tinha entrado numa dimensão diferente do tempo. Lá fora, o lago de Atitlán continuava respirando entre montanhas e vulcões; lá dentro, sobre prateleiras de madeira, dezenas de vasilhas de barro pareciam esperar imóveis o momento exato para contar uma história.

Aproximei-me de uma delas por curiosidade. Sua superfície não revelava o tesouro que guardava: sementes de milho, feijão e outras variedades crioulas que sobreviveram graças ao cuidado diligente de comunidades indígenas e camponesas da Guatemala. Pensei que era um paradoxo bonito. Numa época fascinada pela inteligência artificial, pela engenharia genética e pelas soluções de laboratório, boa parte do futuro continuava repousando em recipientes de barro moldados por mãos humanas.

Cheguei procurando entender um banco de sementes. Terminei encontrando uma biblioteca.

Cada semente era um pequeno livro escrito por gerações que aprenderam a conversar com a chuva, a ler o comportamento dos solos e a distinguir qual planta resistia a uma seca ou a uma praga. Ali, a biodiversidade deixava de ser um conceito técnico para se tornar uma narração coletiva onde a ciência e a memória caminhavam juntas.

Enquanto percorríamos o espaço, as explicações sobre umidade, temperatura e métodos de conservação se misturavam com perguntas muito mais difíceis de responder. O que significa perder uma semente? Desaparece apenas uma variedade agrícola ou também se extingue uma forma de olhar o mundo?

Cristian Mucia, engenheiro agroflorestal do IMAP, falava de adaptação genética, resiliência climática e conservação. Mas por trás de suas palavras aparecia outra verdade: as sementes crioulas não são produtos fabricados para o mercantilismo. São o resultado de séculos de observação paciente, de intercâmbio comunitário e de uma relação íntima entre as pessoas e seus territórios. Cada uma traz impressa a marca de quem a semeou antes.

Então compreendi que aquelas vasilhas não armazenavam simples grãos. Guardavam decisões.

A decisão de uma família que guardou a melhor espiga para voltar a semeá-la no ano seguinte. A decisão de compartilhar sementes com um vizinho depois de uma má colheita. A decisão coletiva de preservar variedades que nunca foram registradas por uma empresa, mas que alimentaram comunidades inteiras por gerações.

Nesse momento, a visita deixou de me parecer um percurso educativo e começou a adquirir uma dimensão política.

Porque enquanto no banco as sementes descansavam em silêncio, fora de suas paredes a Guatemala discutia o futuro da sua agricultura. O debate em torno do Acordo Governativo 532026 reativou velhas tensões sobre a regulação das sementes, a possível expansão de materiais geneticamente modificados e a capacidade das comunidades de continuar controlando aquilo que cultivam. De um lado, o discurso da modernização e da simplificação administrativa; do outro, as vozes que advertem sobre a perda de biodiversidade e de soberania alimentar.

Mas diante de uma vasilha de barro, essas categorias se tornam insuficientes.

Ali se torna evidente que uma semente é muito mais que um insumo agrícola. É cultura comprimida. É tecnologia desenvolvida durante séculos por povos que raramente aparecem nos livros de história nacional. É uma forma de resistência frente à ideia de que só o uniforme, o patenteado ou o industrial merece sobreviver.

No IMAP aprendi outra lição inesperada: conservar não significa guardar sob chave. As sementes saem do banco, viajam a outras comunidades, voltam à terra, reproduzem-se e regressam enriquecidas por novas experiências. Permanencem vivas precisamente porque circulam. O banco funciona menos como um cofre e mais como um coração que bombeia diversidade para os territórios.

Enquanto escutava, imaginei o trajeto silencioso de uma semente passando de mão em mão durante décadas, sobrevivendo a governos, secas, conflitos e mercados. Perguntei-me quantas pessoas teriam cuidado da mesma linhagem de milho antes de ela chegar àquela vasilha. Quantos nomes anônimos estavam contidos num grão do tamanho de uma unha.

Quando abandonei o lugar, a paisagem continuava a mesma. As montanhas seguiam abraçando o lago e o vento movia as folhas com a mesma indiferença de sempre. A única coisa que tinha mudado era a minha maneira de olhar.

Entendi que a soberania alimentar não começa num decreto nem termina numa discussão técnica. Começa quando alguém decide guardar uma semente para a temporada seguinte, compartilhá-la com outra família ou protegê-la para que seus filhos também possam semeá-la.

E desde então não consegui parar de pensar que, num pequeno quarto às margens do lago de Atitlán, se guarda uma das respostas aos desafios do nosso tempo. Porque enquanto o mundo persegue soluções cada vez mais sofisticadas para enfrentar as crises alimentares e climáticas, algumas continuam esperando, discretas e pacientes, dentro de uma vasilha de barro: pequenas sementes que nos lembram que a diversidade, a cooperação e a memória são, talvez, as formas mais profundas de resistência e de esperança.

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