Posted on: 9 de outubro de 2020 Posted by: Erahsto Felício Comments: 0

Tradução Editora Terra Sem Amos e Teia dos Povos

Outubro de 2020.

Suponhamos que seja possível escolher, por exemplo, o olhar. Vamos supor que você possa se libertar, mesmo por um momento, da tirania das redes sociais que impõem não apenas o que você vê e o que você fala, mas também como você deve ver ou falar. Então, vamos supor que você olhe para cima. Mais acima: de imediato ao local, ao regional, ao nacional e ao global. Você vê? Certo, um caos, uma bagunça, uma desordem. Então vamos supor que você é um ser humano; enfim, que você não é um aplicativo que, rapidamente, olha, classifica, hierarquiza, julga e sanciona. Então você escolhe o que olhar… e como olhar. Poderia ser, é uma suposição, que olhar e julgar não são a mesma coisa. Assim, você não apenas escolhe, mas também decide. Mudar a pergunta de “isso é errado ou certo?” para “o que é isso?”. Claro, a primeira questão leva a um saboroso debate (ainda há debates?). E dali para o “Isso é errado – ou certo – porque eu estou dizendo”. Ou, talvez, haja uma discussão sobre o que é certo e errado, e daí para discussões e notas de rodapé. Certo, você tem razão, isso é melhor do que recorrer a “likes” e “mãozinhas para cima”, mas eu propus mudar o ponto de partida: escolher o destino do seu olhar.

Por exemplo: você decide olhar os muçulmanos. Você pode escolher, por exemplo, entre aqueles que perpetraram o ataque a Charlie Hebdo ou aqueles que estão agora marchando pelas estradas da França para reivindicar, exigir e impor seus direitos. Já que você chegou a estas linhas, é muito provável que você escolha os “sans papiers”. Naturalmente, você também se sente obrigado a dizer que Macron é um imbecil. Mas, ignorando esse rápido olhar para cima, você volta a olhar as concentrações, acampamentos e marchas de migrantes. Você se pergunta sobre a quantidade. Eles parecem muitos, ou poucos, ou demasiados, ou suficientes. Você passou da identidade religiosa para a quantidade. E então você se pergunta o que eles querem, por que eles estão lutando. E aqui você decide se vai à mídia e às redes para descobrir… ou os escuta. Suponha que você pode perguntar a eles. Perguntará quantos são em sua crença religiosa? Ou o motivo de deixarem suas terras e decidiram ir para solos e céus que possuem outra língua, outra cultura, outras leis, outros modos? Talvez eles lhe respondam com uma palavra: guerra. Ou talvez eles detalhem o que essa palavra significa na realidade deles. Guerra. Você decide investigar: guerra onde? Ou, melhor ainda, por que esta guerra? Então você está sobrecarregado de explicações: crenças religiosas, disputas territoriais, pilhagem de recursos, ou simples e claramente, estupidez. Mas você não está satisfeito e pergunta quem se beneficia com a destruição, o despovoamento, a reconstrução, o repovoamento. Encontra os dados de várias corporações. Investiga as corporações e descobre que elas estão em vários países, e que fabricam não apenas armas, mas também carros, foguetes interestelares, fornos microondas, serviços de encomendas, bancos, redes sociais, “conteúdo de mídia”, roupas, telefones celulares e computadores, calçados, alimentos orgânicos e não orgânicos, companhias de navegação, vendas on-line, trens, chefes de governo e armários, centros de pesquisa científica ou não, cadeias de hotéis e restaurantes, “fast food”, companhias aéreas, usinas termoelétricas e, é claro, fundações de ajuda “humanitária”. Você poderia dizer, então, que a responsabilidade é da humanidade ou do mundo inteiro.

Mas você se pergunta se o mundo ou a humanidade também não são responsáveis por esta marcha, concentração, acampamento de migrantes, dessa resistência. E então você chega à conclusão de que, talvez, provavelmente, seja todo um sistema que é responsável. Um sistema que produz e reproduz a dor, os que a infligem assim como os que sofrem com ela.

Agora, olhe a marcha ao longo das estradas da França. Suponha que são poucos, muito poucos, que é só uma mulher carregando seu bebezinho. Você se importa agora com sua crença religiosa, sua língua, suas roupas, sua cultura, seus modos? Você se importa que seja apenas uma mulher carregando um bebezinho? Agora esqueça a mulher por um momento e concentre sua atenção somente na criança. Importa se é um menino ou uma menina ou outre? Sua cor de pele? Talvez você descubra, agora, que é sua vida que importa.

Agora, vá mais além, afinal de contas, você já alcançou estas linhas, portanto, mais algumas não vão te machucar. Ok, não muito.

Suponha que essa mulher fale com você e você tenha o privilégio de entender o que ela diz. Você acha que ela vai exigir que você lhe peça desculpas por causa da cor da sua pele, sua crença religiosa ou não, sua nacionalidade, seus antepassados, sua língua, seu gênero, seus modos? Você espera que ela lhe perdoe e que você volte à sua vida com essa conta paga? Ou que ela não lhe perdoe e você se diga “bem, pelo menos eu tentei e lamento sinceramente por quem sou”?

Ou você tem medo de que ela não fale com você, que ela apenas lhe olhe silenciosamente, e você sinta aquele olhar perguntando “E você, o que quer”?

Se você chegar a este raciocínio-sentimento-angústia-desespero, então, sinto muito, você não tem cura: você é um ser humano.

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Sabendo que você não é um bot, repita o exercício na Ilha de Lesbos; no Rochedo de Gibraltar; no Canal da Mancha; em Nápoles; no rio Suchiate; no Rio Bravo.

Agora dirija seu olhar e procure a Palestina, Curdistão, Euskadi e Wallmapu. Sim, eu sei, está um pouco tonto… e isso não é tudo. Mas nesses lugares, há aqueles (muitos ou poucos ou demasiados ou suficientes) que também lutam pela vida. Mas acontece que eles concebem a vida como sendo inseparavelmente ligada à sua terra, sua língua, sua cultura, seu modo de vida. É isso que o Congresso Nacional Indígena nos ensinou a chamar de “território”, e que não é apenas um pedaço de terra. Você não se sente tentado a fazer com que esse povo lhe conte sua história, sua luta, seus sonhos? Sim, eu sei, talvez seja melhor para você ir na Wikipédia, mas você não se sente tentado a ouvi-los diretamente e tentar entendê-los?

Volte agora ao que está entre o Rio Bravo e Suchiate. Vá para um lugar chamado “Morelos”. Uma nova aproximação no município de Temoac. Foque agora na comunidade de Amilcingo. Você vê aquela casa? É a casa de um homem que em vida foi chamado Samir Flores Soberanes. Na frente daquela porta ele foi assassinado. Seu crime? Opor-se a um mega-projeto que representa a morte para a vida das comunidades às quais pertence. Não, eu não cometi um erro na escrita: Samir foi assassinado não por defender sua vida individual, mas pela vida de suas comunidades.

Mais ainda: Samir foi assassinado por defender as vidas de gerações que sequer foram pensadas. Porque para Samir, para seus companheiros e companheiras, para os povos originários agrupados na CNI, e para nós, os Zapatistas, a vida da comunidade não é algo que acontece apenas no presente. É, acima de tudo, o que virá. A vida da comunidade é algo que se constrói hoje, mas para o amanhã. Então a vida comunitária é algo que se herda. Você acha que tudo se acerta se os assassinos – o intelectual e o material – pedirem perdão? Você acha que sua família, sua organização, a CNI, nós, ficaremos satisfeit@s se os criminosos pedirem perdão? “Perdoe-me, eu o indiquei para que os pistoleiros o executassem, e sempre fui um arrogante falador. Me corrigirei, ou não. Já pedi seu perdão, agora retire sua concentração daqui e vamos terminar a termoelétrica, porque se não, muito dinheiro será perdido”. Você acha que é isso que esperam, esperamos, que é por isso que lutam, lutamos? Que declarem “com licença, sim, nós assassinamos Samir e, ao passarmos com este projeto, assassinamos suas comunidades”. Portanto, nos perdoe. E se não nos perdoarem, isso não nos importa, o projeto tem que ser concluído”?

E acontece que as mesmas pessoas que pediriam perdão pela usina termoelétrica são as mesmas pessoas do trem erroneamente chamado “Maya”, as mesmas pessoas do “corredor transístmico“, as mesmas pessoas das barragens, minas a céu aberto e usinas elétricas, os mesmos que fecham as fronteiras para deter a migração causada pelas guerras que elas mesmas alimentam, as mesmas pessoas que perseguem os Mapuche, as mesmas pessoas que massacram os Curdos, os mesmos que destroem a Palestina, os mesmos que atiram em afro-americanos, os mesmos que exploram (direta ou indiretamente) trabalhadores em qualquer canto do planeta, os mesmos que cultivam e glorificam a violência de gênero, os mesmos que prostituem crianças, os mesmos que espionam você para descobrir o que você gosta e lhe vender isso – e se você não gosta nada, eles fazem você gostar – os mesmos que destroem a natureza. As mesmas pessoas que querem que você, outros e nós acreditemos que a responsabilidade por este crime global e contínuo é responsabilidade das nações, das religiões, da resistência ao progresso, dos conservadores, das línguas, das histórias, dos modos. Que tudo é sintetizado em um indivíduo… ou indivídua (sem esquecer a paridade de gênero).

Se fosse possível ir a todos esses cantos deste planeta moribundo, o que você faria? Bem, nós não sabemos. Mas nós, Zapatistas, iríamos e aprenderíamos. Claro, para dançar também, mas uma coisa não exclui a outra, eu acho. Se houvesse essa oportunidade, estaríamos dispost@s a arriscar tudo, tudo. Não apenas nossa vida individual, mas também nossa vida coletiva. E se essa possibilidade não existisse, nós lutaríamos para criá-la. Para construí-lo, como se fosse um navio. Sim, eu sei, é uma loucura. Algo impensável. Quem pensaria que o destino daqueles que resistem à usina termoelétrica, em um pequeníssimo canto do México, poderia interessar à Palestina, aos mapuches, aos bascos, aos imigrantes, aos afro-americanos, aos jovens ambientalistas suecos, aos guerreiros curdos, às mulheres que lutam em outra parte do planeta, ao Japão, à China, às coreanas, à Oceania, à mãe África?

Não deveríamos, em vez disso, ir, por exemplo, a Chablekal, em Yucatan, às instalações da Equipo Indignación, e perguntar-lhes: “Ei! Vocês são de pele branca e são crentes, peçam perdão! Tenho quase certeza que eles responderiam: “Sem problemas, mas espere sua vez, porque agora estamos ocupados acompanhando aqueles que resistem ao Trem Maia, aqueles que sofrem espoliação, perseguição, prisão, morte”. E acrescentariam:

“Também temos que lidar com a acusação que a Suprema Corte fez de que somos financiados pelos Illuminatti como parte de um plano interplanetário para deter a 4T”. O que tenho certeza é que eles usariam o verbo “acompanhar”, e não “dirigir”, “comandar”, “liderar”.

Ou devemos apenas invadir a Europa com o grito de “rendam-se caras-pálidas! “e destruir o Parthenon, o Louvre e o Prado, e em vez de esculturas e pinturas, encher tudo com bordados Zapatista, especialmente as passamontanhas Zapatistas – que, por sinal, são eficazes e bonitas – e, em vez de massas, frutos do mar e paella, impor o consumo de milho, cacau e yerba mora; em vez de refrigerantes, vinho e cerveja, “pozol” obrigatório; e quem sai na rua sem balaclava, multa ou prisão (sim, opcional, porque também não se deve exagerar); e exclamar “A esses roqueiros, marimba obrigatória! E de agora em diante, cumbias! nada de reggaeton (tentador, não?). Vamos ver Panchito Varona e Sabina, os demais nos coros, arranquemos com “Cartas Marcadas”, e em loop, ainda que nos limitem até às dez, às onze, às doze, à uma, às duas e às três… e já, porque amanhã temos que madrugar! Ouves outro tu, ex-rei pé-em-polvorosa, deixa em paz esses elefantes e te põe a cozinhar! Sopa de abóbora para toda à corte! (eu sei, minha crueldade é estranha)?

Agora me diga: você acha que o pesadelo dos de cima é que sejam forçados a pedir perdão? Não será que sonham com coisas horríveis, que desapareçam, que não importem, que não sejam levados em consideração, que não sejam nada, que seu mundo desmorone sem fazer nenhum barulho, sem nada que lembre deles, que ergam estátuas, museus, canções, feriados? Será que eles têm pânico desta realidade possível?

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Foi uma das poucas vezes em que o falecido SupMarcos não recorreu a um exemplo cinematográfico para explicar algo. Porque, vocês não devem saber, nem eu deveria contar, mas o defunto poderia se referir às etapas de sua curta vida, cada uma delas, a um filme. Ou fazer uma explicação da situação nacional ou internacional com um “como podemos ver em filme tal”. Naturalmente, mais de uma vez tive que reescrever o texto para adequá-lo à narrativa. Como a maioria de nós não havia visto o filme em questão e não tínhamos sinal de celular para consultar a Wikipedia, acreditávamos nele. Mas não nos desviemos do assunto. Espere, acho que ele deixou escrito em um daqueles papéis que enchem seu baú de lembranças… Aqui está! Vejam:

“Para entender nosso compromisso e o tamanho de nossa ousadia, imagine que a morte é uma porta que se cruza. Haverá muitas e variadas especulações sobre o que está por trás daquela porta: céu, inferno, limbo, nada. E sobre essas escolhas, dezenas de descrições. A vida, portanto, poderia ser entendida como o caminho para esta porta. A porta, a morte então, seria assim um ponto de chegada… ou uma interrupção, o impertinente corte da ausência ferindo o ar da vida.

Essa porta seria então alcançada pela violência da tortura e do assassinato, a infelicidade de um acidente, a dolorosa passagem por essa porta por uma doença, cansaço, desejo. Em outras palavras, embora na maioria das vezes se chegasse a essa porta sem desejar ou pretender, também seria possível que fosse uma escolha.

Nos povos originários, hoje Zapatistas, a morte era uma porta colocada quase no início da vida. As crianças a encontrariam antes dos cinco anos de idade e a atravessariam em meio a febres e diarreias. O que fizemos em 1º de janeiro de 1994, foi tentar afastar aquela porta. É claro que tínhamos que estar dispostos a passar por ela para assim fazê-lo, mesmo que não quiséssemos. Desde então, todos os nossos esforços têm sido, e ainda são, afastar essa porta o mais longe possível. “Prolongar a expectativa de vida”, diriam os especialistas. Mas uma vida digna, acrescentamos. Afastá-la até que seja posta de lado, mas muito à frente do caminho. É por isso que dissemos no início da insurgência que “para viver, morremos”. Porque se não herdarmos a vida, isto é, o caminho, então para que viveremos”?

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Herdar a vida.

Era precisamente com isso que Samir Flores Soberanes estava preocupado. E é isso que pode sintetizar a luta da Frente Popular em Defesa da Água e da Terra de Morelos, Puebla e Tlaxcala, em sua resistência e rebeldia contra a termoelétrica e o chamado “Proyecto Integral Morelos”. Às suas exigências de parar e fazer desaparecer um projeto de morte, o mau governo responde argumentando que muito dinheiro seria perdido.

Ali, em Morelos, o confronto atual ao redor do mundo é sintetizado: dinheiro versus vida. E nesse confronto, nessa guerra, nenhuma pessoa honesta deve ser neutra: nem com dinheiro, nem com a vida.

Portanto, poderíamos concluir, a luta pela vida não é uma obsessão dos povos originários. É antes… uma vocação… e coletiva.

Certo. Saúde, e não esqueçamos que perdão e justiça não são a mesma coisa.

Desde as montanhas de Los Alpes, duvidando qual invadir primeiro: Alemanha, Áustria, Suíça, França, Itália, Eslovênia, Mônaco, Liechtenstein? Naah, é brincadeira… ou não?

O SupGaleano praticando seu “vômito” mais elegante.

México, outubro de 2020.

Do Caderno de Apontamentos do Gato-Cachorro: Um montanha em alto-mar. Parte I: A balsa.

“Y nos mares de todos os mundos que no mundo são,

se olham montanhas que se movem sobre a água e, com ela

rosto negado, mulheres, homens e outroas sobre elas”.

“Crônicas do amanhã”. Don Durito de La Lacandona. 1990.

À terceira tentativa fracassada, Maxo ficou pensativo, depois de uns segundos, exclamou: “Quero laço”. “Eu lhe disse”, óbvios Gabino. O restante da balsa flutuavam dispersos, chocando uns com os outros ao gosto da corrente do rio que, fazendo honra a seu nome de “Colorado”, se pintava do barro avermelhado que arrancava das margens.

Chamaram então um esquadrão miliciano de cavalaria, que chegou ao ritmo da “Cumbia sobre el Río Suena”, del maestro Celso Piña. Foram empatando os laços e fizeram dois vãos largos. Mandaram uma equipe do outro lado do rio. Amarrados a seus laços à balsa, ambos grupos poderiam controlar o trajeto do navio sem que acabasse desfeito, arrastado o maço de troncos por um rio que nem sequer dava por inteiro à navegação.

O despropósito em curso surgiu depois de que se decidiu a invasão…, perdão, a visita aos cinco continentes. E pois já de qualquer jeito. Porque, quando se voltou, e ao final o SupGaleano lhes disse “estão loucos, não teremos barco”, Maxo respondeu: “faremos um”. Rápido começaram a fazer propostas.

Como todo o absurdo em terras zapatistas, a construção do “barco” convocou a banda de Defesa Zapatista.

“As companheiras vão morrer miseravelmente”, sentenciou Esperança, con su já lendário otimismo (em algum livro a criança encontrou essa palavra e entendeu que era para se referir a algo horrível e irremediável, e a usa ao gosto: “Minhas mamães me pentearam miseravelmente”, “a mestre me pôs de lado miseravelmente”, e assim), quando da quarta tentativa, a balsa se desmantelou quase imediatamente.

“E os companheiros”, o pedrito se sentiu obrigado a acrescentar, duvidando se a solidariedade de gênero era conveniente neste destino… miserável.

“Nann”, replicou Defesa. “Companheiros como queira repor, mas companheiras… onde vão a encontrar? Companheira, de verdade companheira, não uma qualquer”.

O bando de Defesa estava colocada estrategicamente. Não para contemplar os avatares dos comitês para construir o barco. Defesa e Esperança tinham tomado das mãos da Calamidade, que já tinha tentado duas vezes se lançar no rio para resgatar a balsa, e em ambas foi derrubada por Pedrito, o Pablito e o amado Amado. O cavalo manco e o gato-cachorro foram atropelados desde o arranque. Preocupavam-se desnecessariamente. Quando o SupGaleano viu que chegava a horda, designou 3 pelotões de milicianas na margem do rio. Com sua habitual diplomacia e sem deixar de sorrir, o Sup lhes disse: “Se essa criança chegar na água, todas morrem”.

Depois do êxito na sexta tentativa, os comitês experimentaram carregando a balsa do que chamaram “coisas essenciais” para a viagem (uma espécie de kit de sobrevivência zapatista): um saco de tortillas, panela, uma saca de café, algumas bolas de pozol [massa de milho fermentada], um terço de lenha, um pedaço de lona para si chover. Ficaram contemplados e se deram conta de que algo faltava, Claro, não tardaram em trazer uma marimba. 

Maxo foi onde o Monarca e o SupGaleano revisavam uns desenhos dos que lhes contarei em outra ocasião e disse: “Oi, Sup, quero que lhes envie carta aos do outro lado: que busquem um laço e que o suspendam para que este seja bem cumprido, e lancem até aqui e então desde as duas margens vamos movendo o “barco”. Mas quero que se organizem, porque se cada um lançar uma corda por seu lado, pois assim não chegará. Quero que os levantem, pois, e organizados”.

Maxo não esperou que o SupGaleano saísse de seu desconcerto e tratara de lhe explicar que havia uma grande diferença entre uma balsa feita com troncos amarrados com liana [planta] e um barco para cruzar o Atlântico.

Maxo se foi a supervisionar a prova da balsa com toda impertinência. Discutiram quem subiria para provar com as pessoas, mas o rio se remexia com um humor fúnebre, assim que optaram por fazer um boneco e fixá-lo no meio da embarcação. Maxo era como o engenheiro naval porque, faz anos, quando uma delegação zapatista foi apoiar ao acampamento Cucapá, se meteu no Mar de Cortês. Maxo não explicou que quase se afoga porque a passamontanhas grudou no nariz e na boca e não conseguia respirar. Como um lobo do mar explicou: “é como um rio, mas sem correnteza, e mais largo, um bom tanto, como a lagoa de Miramar”.

O SupGaleano estava tratando de decifrar como se diz “laço” em alemão, italiano, francês, inglês, grego, euskera, turco, sueco, catalão, finlandês, etc., quando a major Irma se aproximou e lhe disse “põe que [elas] não estão sós”. “Nem [eles] sós”, agregou o tenente coronel Rolando. “Nem soas” [junção de gêneros], aventurou a Marijose, que chegou para pedir aos músicos que façam uma versão de Lago dos Cisnei, mas em cumbia. “Assim, alegre pois, que dancem, que não esteja triste seu coração”. Os músicos perguntaram que coisa é “cisnei”. “São como patos, mas mais bonitinhos, como que esticassem seus pescoços e assim ficaram. Tipo como se fossem girafas, mas caminham como patos”. “Se comem?”, perguntaram os músicos, que sabiam que já era a hora do pozol e só tinham chegado para deixar a marimba. “Como crês! Os cisnes dançam”. Os músicos disseram que uma versão de “pinto com fritas” poderia servir. “Vamos estudar”, disseram e se foram a tomar pozol.

Enquanto tanto Defesa Zapatista e Esperança convenciam a Calamidade de que, posto que o SupGaleano estava ocupado, sua cabana estava vazia e era muito provável que tivesse escondido um pacote de mantecadas [doce feito com gordura de porco] na caixa do tabaco. Calamidade duvidava, assim que tiveram que decidir-lhe que lá poderiam jogar as pipocas. Se foram. O Sup lhes vio afastar-se, mas não se preocupou, era impossível que encontrasse o esconderijo das mantecadas, ocultas sob bolsas de tabaco com cogumelos, e, se dirigindo ao Monarca e assinalando uns diagramas, lhe perguntou “Estás seguro de que não afunda? Porque logo se vê que estará pesado”. O Monarca ficou pensando e respondeu: “De repente”. E logo disse, sério: “pois que levem bexigas, assim flutuam”.

O Sup suspirou e disse: “mais que um barco, o que necessitamos é um pouco de prudência”. “E mais laço”, assinalou o SubMoy, que ia chegando justo no momento em que a balsa, com o topo da carga, se afundava”.

Enquanto na margem o grupo de Comitês contemplava os restos do naufrágio e a marimba flutuando de cabeça pra baixo, alguém disse: “sorte que não subimos a equipe de som, esse é mais caro”.

Todos aplaudiram quando saiu flutuando o boneco de trapos. Alguém, previsor, lhe tinha posto, sob os braços, duas bexigas infladas.

Dou fé.

Miau-Au.

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