Texto publicado originalmente em Desinformémonos: https://desinformemonos.org/si-no-tuvieramos-mama-creo-que-morimos-todos-de-una-vez-dedica-ezln-texto-a-madres-buscadoras/
Por: Redação do Desinformémonos
Ciudad de México | Desinformémonos. O Capitão Marcos dedicou às mães buscadoras a narrativa “A Genealogia do Tamal”, na qual se conta a preparação da terra e o processo de plantio do milho para a elaboração de tamales, por meio das técnicas e conhecimentos que os povos “e as mamães” conhecem e transmitem de geração em geração.
O texto faz parte da série “Um Trator em Comum e o Caso do Periquito Louco” e foi publicado no último 10 de maio, no contexto do Dia das Mães, junto com um vídeo do processo de plantio do milho.
A seguir, o vídeo e o comunicado completo (Imagens: Tercios Compas Zapatistas/ Música: Los Cojolites — “Tierra Madre”):
Un Tractor en Común y el Caso del Perico Loco.
I.- La Genealogía del Tamale.
Para as mães buscadoras, com admiração e respeito.
Devo esclarecer a vocês que eu acreditava que não veria isso em vida. Essa combinação de conhecimentos e práticas de usos e costumes de muitas décadas atrás, com as ciências e as técnicas aplicadas. Sim, no campo. Sim, na luta pela vida.
O Subcomandante Insurgente Moisés me explicou o processo:
Primeiro se escolhe o terreno. Quanto mais plano, melhor. Depois vem o que se chama derrubar e roçar, ou seja, com facão e, às vezes, machado, derrubam-se árvores grandes, médias e pequenas. Se já for um terreno de antiga milpa1, então é acahual (árvores e plantas pequenas). Se era pastagem, então já não há árvores. É preciso esperar que seque bem e depois vem a “queima”, que consiste, como o nome indica, em colocar fogo no terreno para que a terra seja fertilizada com as cinzas. Em seguida vem a limpeza, isto é, retirar pedras, troncos, galhos e raízes.
Depois segue o plantio, que é feito com a coa (uma vara reta, às vezes com ponta de ferro). Quem planta leva as sementes dentro de uma pequena bolsa e vai avançando pouco a pouco, perfurando a terra com a coa e depositando a semente no solo.
Depois vem esperar que chova. Claro, isso se a seca (temporada de calor), com seus ventos fortes, não levar a queimadura além do “guarda-raias”; então é preciso se organizar coletivamente para apagar o fogo antes que ele se espalhe e chegue à floresta… ou aos povoados.
Se chover, ótimo. Se não chover, ruim. E então é preciso soltar fogos no céu, para que a nuvem desperte e se derrame sobre a terra, onde a semente espera a vida que cada gota de água carrega.
E depois? Esperar, ficar atento ao clima. Se tudo correr bem, em uns três meses haverá milho verde e depois milho maduro. Depois vem a colheita: recolher as espigas e amontoá-las numa pequena cabana chamada “troje”. Dali, cada vez que for necessário, leva-se uma certa quantidade de espigas para casa, e a família inteira (avós, pais e filhos) se senta para debulhar.
Depois vem cozinhar o milho com um pouco de cal extraída de pedras. A cal é feita com uma pedra especial, branca. Em algumas partes chamam de Poj’ton. Ela é aquecida com lenha e depois moída até virar um pó bem fino. Se não encontrar, pode ser feita com a casca do caracol de rio. E, se não tiver Poj’ton nem caracol, então não há jeito: é preciso conseguir dinheiro para comprar a cal.
Uma companheira me esclarece:
“Essa coisa de misturar a cal com o milho não é para qualquer um. É preciso, como quem diz, das mamães. A mãe te diz quanto de cal colocar na panela com o milho na água. Se não estiver no ponto certo, não serve. E se colocar demais, arde. Então você tem que calcular, conforme sua mãe ensina. Quando cresce, já sabe calcular. Mas não é que você mede com centilitros, mililitros e essas coisas da matemática. Você mede conforme sua mãe ensina. E tem que mexer bem com a mão, para não ficar bolinhas, mas sim no ponto exato.
Se você não aprende a fazer direito, logo isso se espalha pelo povoado e as pessoas te olham mal. E pior para a mãe, porque falam mal dela por não ensinar aos filhos o que é o milho, ou seja, o que é a vida. Então os filhos precisam aprender bem. Como quem diz, as mães precisam dos filhos. Acho que é por isso que muitas vezes nos repreendem quando somos pequenos, para que aprendamos. E por isso as mamães estão sempre pensando nos seus filhos e, se eles não estão, elas os procuram. Se não tivéssemos mãe, acho que todos morreríamos de uma vez.
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Depois, quando o milho cozido já está pronto, vem a moagem manual, com um velho moinho mecânico. Se não houver, então se usa o metate e a pedra. Então a massa já está pronta para a tortilla… ou para o tamal [pamonha].
Se for festa, então talvez seja preparado com cuche (porco), frango ou peru. E o ‘recado’, claro, que é como o tempero colocado na carne. Se não houver carne, então vai feijão… ou verduras (eca). Também pode ser feito com pimenta verde ou vermelha, e com açúcar.
Depois de tudo isso, e se você tiver sorte de quem cozinha não deixar o tamal cru, então poderá comer tamales. E se estiver cru, paciência, do mesmo jeito você tem que comer, porque é o que tem. Isso sim: é preciso tomar a precaução de ter uma latrina por perto.
Se é festa, há dança. Sim, cumbias. Embora depois também haja rock, ska, banda e essas músicas com que as jovens e os jovens pulam como se estivessem em cima de um formigueiro. Mas o amor e, claro, o desamor, costumam florescer e dar frutos com as cumbias. Ali os quadris prometem febres… e noites em claro… e chuvas… e dissabores
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E depois? Bem, tudo recomeça outra vez. E assim pelos séculos dos séculos. Há humanidade porque há terra. Ou seja, como quem diz, a terra é a mãe da humanidade. Veja só: se não houvesse terra, de onde você tiraria todas as porcarias que come? Sem terra não há alimentos, nem animais, nem ar, nem chuva. Não há nada. Por isso dizemos que a terra é vida.
Os povos e comunidades do Congreso Nacional Indígena nos ensinaram a dizer “território”. Ou seja, não é apenas a terra-terra, mas também a água, as florestas, os animais silvestres, a chuva, o vento, o sol. Tudo. Nós, quando dizemos “terra”, queremos dizer tudo isso; mas nas cidades entendem terra como um pedaço de chão, e não como um todo. Por isso o CNI nos ensinou a dizer “território”.
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As guerras atuais, diga-se de passagem, são para conquistar territórios. Por isso não importa quantas pessoas assassinam nem quantos edifícios, hospitais, escolas (com meninas dentro), bairros inteiros destroem. Porque é disso que se trata a guerra capitalista: destruir para depois reconstruir; e despovoar para depois reorganizar o território conquistado.
E é por isso que existem, na humanidade, os chamados “Guardiões” da terra, ou seja, do território. Ou seja, são os filhos da Mãe Terra, da Resistência e da Rebeldia. E por isso assassinam, fazem desaparecer e encarceram os defensores das florestas. E por isso o problema não é Benjamin Netanyahu ou Donald Trump. Ou não apenas eles, claro.
Porque com eles ou sem eles, o Mandão — isto é, o sistema capitalista — quer assassinar pessoas e destruir populações inteiras. Porque nessas populações e no coração dessas pessoas vive a vida.
Assim nasceu o sistema: matando e destruindo. Assim cresceu. E assim se mantém, ainda que mudem seus modos e suas explicações. O sistema capitalista é morte. Não apenas para a humanidade. Também para o planeta inteiro. Por isso dizemos que a luta contra o capitalismo é a luta pela vida. E vice-versa.
Quem entende isso mais e melhor? Pois aqueles que vivem em um território, ou seja, na terra. Mas eles não lutam pela propriedade do território, e sim para defendê-lo. E é por isso que o capitalismo os ataca, porque atrapalham seus planos.
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E eu perguntei ao SubMoy:
“Mas então já não existe mais a queima?”
“Não. Estamos dando uma demonstração, um ensinamento aos próprios companheiros e aos irmãos partidários de que, usando a técnica, já não é necessário fazer a queima e assim o fogo não se espalha, colocando em perigo animais, árvores e pessoas. Além disso, já não há aquela fumaça toda. E você não precisa esperar a chuva nem gastar foguete à toa. Ou seja, sem deixar de trabalhar a terra, é possível cuidar dela e melhorá-la.”
“E de onde saiu o trator?”
“Ah, ele estava parado num puy2 havia anos, mas não era usado e só estava se estragando. Então chegou o Comum para resgatá-lo. Vieram os ‘choferólogos’, consertaram, lavaram, deixaram ele todo galã, e depois o levaram para esta terra que é do Comum, que é de todos e não é de ninguém.”
“Mas talvez no dia seguinte já não haja combustível para o trator… nem trator.”
“Ah, com certeza. Mas estamos aprendendo como nossos tataravôs e avôs: fazer as coisas com o que existe e com a cabeça. A questão é sempre procurar cuidar da mãe terra.”
Um companheiro é quem ensina e tem alunas e alunos, principalmente tzotziles e cho’oles. Esse companheiro é do Puy de Roberto Barrios, e vem com seu grupo para aplicar o que aprendem. Porque, se não se aplica o que se sabe, então não serve para nada. Ou seja, é preciso prática.
O lugar onde ensina bem poderia se chamar “Centro de Pesquisa, Análise e Ensino Rebelde Zapatista do Trabalho no Campo e da Defesa e Cuidado da Mãe Terra Combinando o Conhecimento dos Nossos Antepassados com Conhecimentos das Ciências, das Técnicas, das Artes e do que Vamos Pensando e Inventando Conforme Vemos na Prática” (CIAERZTCDCMTCCNACCTALVAOISVP, por sua sigla em espanhol).
Não, não é verdade que se chama assim. Mas algum nome vão colocar. Talvez igual ou ainda mais comprido, não sei.
A questão é que, como nas cumbias, o que vale é colocar o conhecimento em prática. Porque você pode escrever livros de teoria da cumbia, explicar com elipses e parábolas, equações diferenciais e assíntotas, a rotação dos quadris e o ritmo dos pés e das mãos. Mas, companheiro, se você não pratica, vai parecer que suas calças são de papelão ou que teve uma câimbra.
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Quando vi que os aspersores já estavam funcionando e que estavam semeando, pensei: “agora já posso morrer”. Acho que pensei isso em voz alta, porque a Verónica, que andava se metendo onde não era chamada, como de costume, me disse:
“De novo?!”
E, olhando para mim com reprovação, acrescentou:
“Você já está ficando insuportável com essa história de morrer a toda hora. Até as mulheres dos povoados já reclamaram com o SubMoy que rezam em vão cada vez.”
“Quer dizer então que rezam por mim?”
“Mas claro que não! Rezem pelo pobre demônio, que vai sofrer quando você chegar ao inferno e começar com suas travessuras.”
Bom, mas esse não é o assunto…
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Em qualquer canto do mundo, florescem as vidas das resistências e rebeldias. Ontem se chamavam Venezuela. Hoje se chamam Irã e Cuba. Sempre se chamam Palestina. Porque sempre haverá quem não se renda, não se venda e não se dobre.
(Continua…)

O Capitão.
Abril-maio de 2026
- A milpa é um sistema tradicional de cultivo indígena muito usado no México e em outras regiões da Mesoamérica. Não é apenas uma plantação, mas um método agrícola comunitário e sustentável. Geralmente milho, feijão e abóbora são plantados juntos. ↩︎
- Antigos Caracóis zapatistas, para entender melhor: Nona parte: A Nova Estrutura da Autonomia Zapatista. | Enlace Zapatista https://share.google/2Gu3Fd3TEGaKWGnz8 ↩︎
