Posted on: 24 de maio de 2026 Posted by: Teia dos Povos Comments: 0

por Mijail Miranda

Matéria originalmente publicada em https://www.revistaanfibia.com/como-romper-un-gobierno-en-seis-meses/

A Bolívia já está há três semanas mobilizada. Camponeses, trabalhadoras e trabalhadores do magistério urbano e rural, das minas e do transporte têm cercado as principais cidades e pedem a renúncia do presidente Rodrigo Paz, seis meses após sua posse. Mijail Miranda, do veículo boliviano Muy Waso, ajuda a entender quais foram as medidas que detonaram a crise, como a protesto está se articulando e até onde isso pode chegar.

A convulsão social escala na Bolívia. Já são três semanas seguidas de protesto social. Estão se mobilizando operários da indústria, mineiros assalariados, motoristas, professores e setores camponeses. O governo, embora midiaticamente se mostre disposto ao diálogo, na prática difunde narrativas que ameaçam endurecer a repressão. La Paz e El Alto estão praticamente cercadas. Segundo os relatos da Administradora Boliviana de Estradas, há bloqueios ativos em La Paz, Oruro, Cochabamba e Santa Cruz, impulsionados principalmente por organizações camponesas e pela Central Operária Boliviana. Todos os setores têm demandas diferentes, mas convergem em uma: pedem a renúncia do presidente Rodrigo Paz, que está há apenas seis meses no poder. Ele é o mandatário das novas direitas latino-americanas que mais rapidamente perdeu legitimidade e enfrenta um levante popular cujas causas é preciso entender nas primeiras medidas do governo, em sua fraca estrutura política e nas características emancipatórias dos movimentos populares bolivianos.

A fragilidade do governo desde sua origem

É preciso voltar ao momento das eleições. Paz não tinha probabilidades reais de acessar a presidência, mas jogou um inesperado ás na manga: incluir como candidato à vice-presidência Edman Lara: ex-capitão da Polícia e influencer, que se tornou conhecido em 2023 por seus vídeos no TikTok denunciando corrupção nas forças de segurança. É uma figura midiática e viral que flerta com os discursos de mão dura de Nayib Bukele (o partido político que tentou fundar antes tinha o mesmo nome do salvadorenho) e manuseia uma retórica “antissistema”, semelhante à que impulsionou Javier Milei no início de seu mandato na Argentina. Essa aliança capturou um voto popular que, de outra forma, Rodrigo Paz jamais teria obtido. Mas Lara é desajeitado e inexperiente no campo da política tradicional, uma figura incômoda para co-governar.

Por isso, semanas após a posse, a ruptura Paz-Lara foi iminente: hoje eles nem se dirigem a palavra.

O presidente aprofundou essa fratura com medidas bem concretas para neutralizar seu vice: decretou o Decreto Supremo 5515, que o habilitou a governar de forma digital a partir do exterior, impedindo que Lara assuma o comando temporário quando Paz está fora do país. Também cortou o orçamento da Vice-presidência. Essas tensões demonstram a fragilidade institucional que os “partidos de aluguel” desencadeiam: siglas desgastadas, cascas vazias que se alugam — como o Partido Democrata Cristão (PDC) usado por Paz — para lançar candidatos sem estrutura política nem territorial.

As “traições” de Paz

Uma vez no poder, Rodrigo Paz tomou uma série de medidas drásticas e impopulares que resultaram em sua perda rapidíssima de legitimidade. Embora as classes populares tenham aceitado com resiliência a remoção dos subsídios aos combustíveis, o que implicou uma rápida alta no custo de vida, o governo começou a importar gasolina de péssima qualidade por meio de gestões opacas, que danificaram milhares de veículos de trabalho sem que houvesse reparações efetivas. Depois, ele impulsionou no Legislativo a eliminação do Imposto sobre as Grandes Fortunas e passou a governar abertamente a favor das elites. Deu as costas aos seus eleitores e se aliou a grupos empresariais, e até mesmo a setores da política que o acusaram de fraude — como Samuel Doria Medina, o bilionário que perdeu no primeiro turno, mas acabou encaixando vários homens de sua confiança no atual gabinete. O ministro mais poderoso do Governo de Rodrigo Paz, José Luis Lupo, foi o candidato a vice-presidente de Doria Medina.

Nas últimas semanas, acuado pelos conflitos, Paz firmou uma aliança com alguns atores do cooperativismo mineiro, um dos grupos econômicos mais poderosos, ricos e violentos no cenário político boliviano. Um setor denunciado por suas dinâmicas extrativistas, predatórias e exploradoras. Por meio do Decreto Supremo 5618, Paz eliminou as fiscalizações e dívidas coativas que duas cooperativas de ouro mantinham com a Caixa Nacional de Saúde desde 2016, deixando uma grave lacuna financeira na seguridade social de curto prazo, o que pode afetar boa parte da força de trabalho boliviana.

Mas, pouco antes, foi a Lei 1720 de Conversão de Pequenas Propriedades Agrárias que ativou as primeiras mobilizações. Por Constituição, a pequena propriedade é impenhorável na Bolívia; a nova lei pretendia convertê-las em médias, forçando-as a serem usadas como ativos financeiros. Esse projeto responde a uma histórica demanda dos setores agroindustriais: foi reintroduzido no Legislativo pelo senador Branko Marinkovic, político e empresário crucenho que se atribui a propriedade de mais de 33 mil hectares em seu departamento.

Outro ponto de ruptura simbólica se deu ao nomear como vice-ministro de Segurança Cidadã o ex-comandante policial Rodolfo Montero, investigado e preso preventivamente por seu papel na cadeia de comando durante os massacres de Sacaba e Senkata em 2019 — que, após o golpe de Jeanine Áñez, deixaram pelo menos 20 mortos e centenas de feridos, segundo o Grupo Interdisciplinar de Especialistas Independentes da CIDH — algo que o povo leu como uma bofetada e uma traição aberta ao transitório apoio popular que Rodrigo Paz teve.

A narrativa do governo e suas limitações

Rodrigo Paz se apresentou durante a campanha como uma alternativa ao MAS, mas também aos políticos de direita. Quando chegou ao poder, deu as costas ao povo que o levou à presidência e optou por governar de mãos dadas com aqueles que eram contra sua candidatura. Agora, o governo aposta em uma narrativa segundo a qual Evo Morales, o MAS e o narcotráfico estariam por trás das mobilizações.

Mas a verdade é que isso é uma tentativa de deslegitimar um protesto massivo associando-o a grupos vinculados a figuras que perderam legitimidade e estão politicamente fragilizadas. Um deles é Evo Morales. O ex-presidente está há meses entrincheirado em Chapare. Há poucos dias, foi expedido um mandado de prisão preventiva, e ele foi declarado rebelde no caso de tráfico de pessoas que pesa contra ele. Ele continua sendo uma figura pública e influente, mas o setor dele não está entre os protagonistas dos protestos contra o Governo de Paz. Na realidade, o palco que o governo lhe oferece é funcional para o enfraquecimento e a estigmatização da revolta popular e permite que as narrativas de estigmatização sejam muito mais facilmente digeríveis: muitas pessoas resistem em apoiar os bloqueios porque são rotuladas, erroneamente, como masistas.

Mas os protestos respondem a uma dinâmica heterogênea, com múltiplos protagonistas, e não podem ser atribuídos unicamente ao evismo. Essa é, precisamente, uma das narrativas mais teimosas e obtusas da direita boliviana nos últimos anos: não entender a complexidade do tecido social ao qual se enfrentam.

A tradição boliviana de negociar na rua

O historiador Eric Hobsbawm desenvolveu o conceito de “negociação coletiva mediante a revolta”, uma categoria sumamente pertinente para analisar o caso boliviano. Diante de um Estado que historicamente não escuta os setores populares, e perante um governo que chega ao poder graças ao voto do povo para depois governar com os grupos de poder econômico, impõe-se a ideia de que a única via possível para negociar é a pressão nas ruas.

Isso já ocorreu durante o mandato de Evo Morales, embora com outros atores e em outro cenário, depois que o governo desconheceu os resultados negativos do referendo de 2016.

Na Bolívia, a rua se ergue como o espaço principal de negociação política, sustentada por uma longa e consolidada tradição de articulação social, de bairros e comunitária em diversas regiões do país. Atualmente, o pedido de renúncia de Rodrigo Paz é a única demanda que conseguiu aglutinar os diferentes setores, embora sem um horizonte concreto nem lideranças visíveis para o dia seguinte.

Embora seja pouco provável que a renúncia se concretize (o chanceler Fernando Aramayo foi taxativo ao descartá-la), essa pressão social poderia, sim, obrigar a uma profunda reestruturação estratégica do governo e a uma recomposição de seu gabinete, no mínimo.

Os protestos representam um forte aviso: na Bolívia não se pode governar dando as costas ao povo. Por isso a insurreição popular não foi neutralizada e continua se expandindo. E essa expansão também poderia ser um chamado à reorganização do descontentamento social em nível regional, colocando a negociação coletiva através da revolta como contrapeso ao autoritarismo militarista de direita.

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