Silvia Beatriz Adoue1
Araraquara, 20 de maio de 2026
Principalmente nasci em Itabira.
Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro.
Noventa por cento de ferro nas calçadas.
Oitenta por cento de ferro nas almas.Confidência do Itabirano2, Carlos Drummond de Andrade
Eu é que não me sento no trono de um apartamento
Com a boca escancarada, cheia de dentes
Esperando a morte chegar
Ouro de tolo3, de Raul Seixas
Descobriram jazidas de terras raras em vários estados. Goiás, San Pablo, Amazonas, Río de Janeiro, Bahia, Paraná e Santa Catarina (além de registros não confirmados em Ceará e Piauí)4. Porém, é a mina Serra Verde, em Goiás, a única em operação, desde 2024, agora adquirida pela USA Rare Earth (USAR). A mina extrai Disprosio (Dy), Terbio (Tb), Neodímio (Nd) e Itrio (Y), consideradas as mais valiosas e raras fora de Ásia5. Os novos proprietários de Serra Verde propõem-se a exportar neste ano 5 mil toneladas de minério. Ao mesmo tempo, foi abortada a proposta de criação da estatal Terrabrás, que pretendia ser uma espécie de “petrobrás das terras raras” 6.
Entre outros usos, as terras raras são fundamentais na indústria de guerra e na eletrificação, mas, especialmente, na assim chamada “transição energética”, que prefiro chamar, como nos Cuadernos del Capitalopoceno: “transição energívora”, já que sua intenção não é substituir os combustíveis fósseis, e sim diversificar as fontes de energia7 e assim continuar com a corrida acelerada para a catástrofe planetária.
China possui 40% das reservas desses minerais e, atualmente, 60% da produção mundial. A Corporação Financeira de Desenvolvimento Internacional dos EUA (DFC) vem intervindo de maneira incisiva para organizar suas próprias cadeias produtivas sem ter ainda controle sobre esses insumos, que hoje compra da China.
Toda esta situação trouxe à tona a discussão sobre a “soberania nacional”. Na recente viagem de Luiz Inácio Lula da Silva a Estados Unidos, o presidente declarou que não quer abrir mão da soberania e, ao mesmo tempo, que pretende ampliar a cooperação com todos os países para explorar terras raras8. O conceito de soberania nacional está aqui associado ao aproveitamento de riquezas, seja por empresários locais ou por empresas estatais. Cabe se perguntar de que tipo de proveito se fala. Em todo caso, trata-se de extrair minério para exportar, já que não existem e nem podem ser instaladas a curto prazo indústrias de transformação que se beneficiem desses insumos. Assim como acontece com outras commodities, e ainda que na ponta da cadeia extrativa tenha empresas locais ou do Estado brasileiro, não serão elas que terão o controle sobre as cadeias de acumulação. Ainda para a extração, Brasil depende de tecnologia e fundos de inversão externos.
Suponhamos que, por arte de mágica, os capitais e/ou o Estado brasileiro contem com tecnologia e recursos para extração de terras raras e que (oh, milagre!) consigam desenvolver cadeias produtivas que aproveitem tais insumos. E, já que estamos imaginando, vamos mais longe: suponhamos que a soberania se estenda à consulta “livre e informada” aos habitantes dos territórios que seriam locais de extração. Falamos de gentes já expulsas da terra e forçadas a vender sua força de trabalho, sua vida, em frações de tempo, para sobreviverem, e aos que se lhes promete postos de trabalho. (Promessas vãs, já que a indústria da extração não absorve tantos braços hoje desempregados.) Em tais condições, não se trata de consulta “livre”: estaríamos frente à extorsão habitual de nos fazer escolher entre a morte mais lenta, ainda que catastrófica, da terra (que nos inclui, e às gerações humanas futuras) e a miséria imediata.
Nem sequer a consulta às gentes das regiões potencialmente afetadas evitaria que a extração mineral destruísse territórios como vem acontecendo no planeta inteiro, criando zonas de sacrifício: o ponto de não retorno para a recuperação das relações “amigáveis” entre humanos e outros seres com os quais compartilhamos o habitat. Essa tal de soberania, sinônimo de superioridade e preeminência, supõe o poder de uns sobre outros. Em qualquer caso, revela a arrogância humana de se sentir rei perante os outros seres, que não serão consultados sobre sua própria destruição. A “soberania” da qual se fala com a boca cheia de dentes não é mais que estupidez.
- Agradeço Laís e Ubirajara pela interlocução. ↩︎
- Ver e ouvir: https://www.letras.mus.br/carlos-drummond-de-andrade/460645/ Itabira, onde o poeta nasceu, teve uma montanha destruída pela extração de ferro. ↩︎
- Ouvír: https://www.youtube.com/watch?v=2kRMdzfFf8M ↩︎
- Ver: https://revistagalileu.globo.com/sociedade/curiosidade/noticia/2026/01/onde-afinal-estao-as-terras-raras-do-brasil.ghtml y https://www.cnnbrasil.com.br/infra/governo-encontra-indicios-de-terras-raras-em-s. Os novospropp-e-no-sul-e-amplia-pesquisas/ ↩︎
- Ver: https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2026-04/empresa-dos-eua-compra-mineradora-brasileira-de-terras-raras
↩︎ - Ver: https://outraspalavras.net/crise-brasileira/terras-raras-o-brasil-e-a-vocacao-colonial/?fbclid=PAb21jcARbCqZleHRuA2FlbQIxMQBzcnRjBmFwcF9pZA81NjcwNjczNDMzNTI0MjcAAadkR4nT8afaBagOZK1o6FkBZmEVFeX7phQQcwWSYAJMAzq_Ubz3MpNhN-8PUw_aem_F44ZfiFR6mDqOISb74C0IA ↩︎
- Ver: https://lapeste.org/wp-content/uploads/2023/12/CUADERNO-CAPITALOCENO-VERSION-PARA-IMPRIMIR.-EL-KINTRAL.pdf ↩︎
- Ver: https://valor.globo.com/brasil/noticia/2026/05/18/lula-diz-que-nao-veta-eua-ou-china-em-exploracao-de-terras-raras-mas-soberania-e-inegociavel.ghtml ↩︎
