Posted on: 1 de dezembro de 2022 Posted by: Teia dos Povos Comments: 1

*Texto escrito por Rosângela de Tugny

Após uma semana de trabalhos, neste 26 de novembro, sob as chuvas que molham o sul da Bahia, nossas irmãs e nossos irmãos Tikmu’un retornaram para a Aldeia-Escola-Floresta levando mudas e sementes do Assentamento Terra Vista. Deixaram no Assentamento os ecos dos seus cantos, preenchendo com sua força os espaços das matas e das roças.

Foto de Gabriel Fernandes
Foto de Rosângela de Tugny

No início de 2021, 95 famílias tikmu’un partiram de Aldeia Verde e ocuparam uma terra de 122 ha pertencentes à União, em Itamunheque, município de Teófilo Otoni, MG. A Aldeia Verde, onde viviam, não mais comportava a população em crescimento e nem oferecia rios e condições para plantio e outras atividades essenciais dos Tikmu’un com os seus aliados, os “espíritos” Yãmiyxop, com os quais firmam suas relações com um cosmos vivo, generoso e atuante em suas vidas. Após o enfrentamento de um duro desterro, em plena pandemia de Covid-19, com três deslocamentos para diferentes áreas, estas famílias Tikmu’un ocuparam uma antiga fazenda em uma localidade denominada Itamunheque. O novo território é vizinho do Assentamento Mãe-Esperança, onde deram início à realização do sonho de fazer florescer uma Escola-Floresta. Quando a ocupação completou um ano, em setembro de 2022, Sueli Maxakali já havia iniciado sua campanha de cura do Rio Todos os Santos, que cruza a Cidade de Teófilo Otoni e o novo território ocupado. Certos da ancestralidade indígena presente nestes territórios por onde passam hoje e encontram a devastação, Isael Maxakali e Sueli Maxakali estão envolvidos com a cura das terras e da Mata Atlântica, e assim reafirmam sua aliança com o Assentamento Terra Vista, refazendo o percurso de seus ancestrais pelos rios Pardo, Jequitinhonha, Alcobaça, Jucuruçu, chegando até o rio Aliança, onde as mulheres ouviram cantos dos seus Yãmiyxop. Solange Brito, uma das líderes do Assentamento Terra Vista, recebeu os Tikmu’un trazendo a história de um processo de mais de trinta anos de luta, ocupação e transformação do assentamento, relembrando os vários enfrentamentos ao capital e ao racismo e revelando as conquistas deste povo. Mestres Capixaba, Isaque, Joelson e os jovens agricultores, como Daniel e Pedro, relataram suas experiências de cuidado com a terra, com as sementes e mudas e o processo histórico de transformação dos métodos de cultivo. Uma atividade com o grupo de mulheres (Andrea, Branca, Valdeci e Solange) na coleta de plantas, destilação e preparo de óleos essenciais trouxe à tona os conhecimentos ancestrais de cura com as folhas que também reverberam nos cantos das mulheres.

Foto de Rosângela
Foto de Gabriel Fernandes

Ali no Terra Vista, ao percorrer as matas e as áreas de plantio, as mulheres Tikmu’un se entusiasmaram por terem encontrado as melhores espécies de embaúbas para a preparação dos fios e belíssimos enlaces de sua arte.

Gabriel Fernandes
Foto de Rosângela de Tugny

O grupo Tikmu’un que visitou o Terra Vista tinha uma maior participação de mulheres, acompanhados da anciã Delcida Maxakali: guardiã de um inestimável repertório de cantos ancestrais, artista dos enlaces da embaúba, parteira, narradora de histórias, dona Delcida estava atenta a todos os gestos de seu povo durante as caminhadas, afirmando com uma voz quase imperceptível, mas ouvida pelos seus, a necessidade de celebrar com a força dos cantos os momentos em que adentravam as matas, encontravam espécies preciosas, identificavam pegadas de animais, derrubavam e raspavam a casca da embaúba, ou ouviam outras vozes.

Foto de Gabriel Fernandes
Registro de Gabriel Fernandes
Registro de Solange Brito

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Delcida Maxakali, mãe de Isael, é também a personagem do filme Nãhã yãg mû yõg hãm | “Essa terra é nossa” que atravessa com um grupo de Tikm’un várias estradas, cercas, pastos, sob o olhar ameaçador de vaqueiros e jagunços, narrando histórias das aldeias de seus avós, certificando sua ancestralidade sobre as terras que rodeiam o território Maxakali hoje insuficiente para seus povos.

Foto de Gabriel Fernandes

Os Tikmu’un são hoje um povo de quase 3 mil pessoas, e estão espremidos a 6.433, 91 hectares de terra, incluindo reservas e a Terra Indígena: Aldeia Escola Floresta, 122 h de terras ocupadas desde setembro 2021 (317 pessoas); Agua Boa (Santa Helena de Minas) e Pradinho (Bertópolis), terra de 5.305 hectares homologada (1979 pessoas); Reserva indígena Aldeia Verde (Ladainha), terra de 544,72 hectares adquirida pela União (176 pessoas) e Reserva indígena Cachoeirinha (Teófilo Otoni), terra de 606, 19 hectares, adquirida pela união (28 pessoas). Por esta razão, diante de Delcida Maxakali, mestre Joelson reafirmou o compromisso da Teia dos Povos com a luta pela conquista das terras ancestrais dos povos Tikmu’un, relembrando que os primeiros passos são a terra e o combate à fome plantando alimentos.

Foto de Gabriel Fernandes

Uma importante discussão sobre a construção de alianças dos Tikmu’un da Aldeia-Escola-Floresta com os vizinhos do Assentamento Mãe-Esperança em Itamunheque revelou a necessidade de afirmar a terra como um bem que não pode ser separado das comunidades e transformado em mercadoria. Os Tikmu’un relataram que seus vizinhos enfrentam as contradições de um processo histórico relacionado à divisão e titularização das terras. Deste modo, a lógica da divisão capitalista da propriedade privada e os conflitos dela decorrentes ameaçam a união entre os povos negros e indígenas. Ao receber as mudas e sementes retiradas por um mutirão coletivo que envolveu homens e mulheres do assentamento Terra Vista, Isael carregou para seus vizinhos as preciosas sementes crioulas guardadas pela Teia dos Povos juntamente com a responsabilidade de iniciar um processo de construção de reciprocidade entre a Aldeia-Escola-Floresta e o Assentamento Mãe-Esperança.

Foto de Rosângela Tugny
Foto de Rosângela Tugny

A partir do aprendizado da história ouvida das assentadas e dos assentados, nas caminhadas e conversas, Isael reafirmou que não estava ali apenas a passeio. Que tudo o que viu ser possível transformar no Assentamento Terra Vista, iria empreender em seu território. Cineasta reconhecido, com vários filmes premiados, Isael disse que hoje, o que mais lhe interessa é plantar floresta. “Não é possível esperar. Se esperar, vai demorar muito. Vou trabalhar com meu povo e tenho certeza que vamos conseguir”.

Foto de Rosângela Tugny

Agradecimentos: A equipe do projeto “Trocas de saberes e sementes Terra Vista – Tikmũ’ũn _Maxakali” agradece aos assentados do Terra Vista, ao Fundo Casa Socioambiental pelos recursos, às parcerias da prefeitura de Teófilo Otoni, da coordenação da FUNAI de Governador Valadares, da FAE-UFMG e da UFSB, da Associação Produzir Juntos (Teófilo Otoni) e às amigas e amigos que estiveram conosco, tornando este momento de trocas ainda mais intenso: Vanessa Tomaz, Roberto Romero, Irislene Rocha,Laudyene Fernandes e Cacá.

Foto de Gabriel Fernandes

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