Posted on: 29 de setembro de 2023 Posted by: Teia dos Povos de Minas Gerais Comments: 0

A Teia dos Povos de Minas Gerais, ativando a Rede de Sementes da Teia do Povos, convocam os núcleos e elos da Teia, territórios, organizações, coletivos, redes e pessoas parceiras à apoiarem essa grande campanha de mudas e sementes para as aldeias do Povo Tikmũ’ũn, que buscam garantir sua autonomia alimentar, soberania cultural e emancipação nutricional, reflorestando e curando a Terra.

HISTÓRICO DO POVO TIKMŨ’ŨN:

Os Tikmũ’ũn, conhecidos como Maxakali, são tradicionais ocupantes da Mata Atlântica, tendo vivido ao longo das bacias dos rios Jequitinhonha, Prado (Jucuruçu) e Mucuri, entre Bahia, Espírito Santo e Minas Gerais. Formam hoje uma população de quase 3 mil pessoas, com alta porcentagem de crianças, vivendo em cinco comunidades ao nordeste de Minas Gerais, entre Ladainha, Teófilo Otoni, Bertópolis e Santa Helena de Minas. Através dos seus cantos, guardam toda a sabedoria de grandes conhecedores da biodiversidade da Mata e sentem orgulho por seguir falando seu próprio idioma do tronco linguístico macro-jê e manter uma cultura ancestral de respeito à terra e seus espíritos.

A situação vivenciada pelos Tikmũ’ũn é também a história de muitos povos indígenas nas mais diversas regiões do Brasil, que sofreram e sofrem sucessivas pressões territoriais e perseguições, sendo levados a se aglutinar, ao longo de cinco séculos, em pequenas porções de seu território, hoje totalmente desmatado pelos fazendeiros que tomaram suas terras. A demarcação de seu território nunca obedeceu aos limites de ocupação tradicional reconhecidos pelos próprios Tikmũ’ũn, sendo um dos menores quantitativos de terras demarcadas para um povo indígena no país. A situação sanitária, alimentar e ambiental é preocupante, agravada pela falta de água potável, tendo sua sobrevivência física e sociocultural ameaçada em decorrência das limitações territoriais e das disputas com fazendeiros, além de questões de saúde relacionadas à doenças, falta de atendimento médico e insegurança alimentar. 

A despeito deste sofrimento, os Tikmũ’ũn têm persistido em seus modos de vida, preservando sua espiritualidade, sua língua e seu patrimônio poético, musical e mítico. Além disso, são grandes conhecedores da biodiversidade da Mata Atlântica, preservando na memória de seus cantos descrições detalhadas deste conhecimento, apesar do atual desaparecimento da floresta. Por sua excepcionalidade, vigor e resistência cultural, os Tikmũ’ũn surgem como um verdadeiro desafio para o mundo do capital no século XXI. 

INTERCÂMBIO DOS POVOS, AUTONOMIA ALIMENTAR E O PROJETO HÃMHI:

“Nosso sonho é pegar a terra e recuperar. Porque ela precisa ser curada, precisa de tratamento. Porque a terra é viva. Terra fala, terra olha a gente e terra grita.” (Isael Maxakali)

No último século, com a violenta ofensiva para ocupar as últimas porções de terra onde resistiam, os Tikmũ’ũn viram seus alimentos tradicionais desaparecerem pela destruição do fogo e ganância dos brancos, roubados pelos fazendeiros que tomavam suas terras. Diversas narrativas dos mais velhos lamentam a perda desses alimentos, que seguem desaparecendo. Apesar disso, nesse lamento há também um desejo pulsante de reencontrar essas espécies, de ter de volta os cultivos ancestrais e os alimentos da floresta, manejados desde tempos imemoriais pelos mõnãyxop (antepassados). Como “filhos da terra”, os Tikmũ’ũn sabem curar esse chão, trazendo de volta a mata, as plantas e os bichos. Criadas as condições de acesso à terra, os Tikmũ’ũn vão conquistar condições para sua soberania alimentar, por meio das roças de subsistência e do plantio de floresta.

Em 2022, com a formação da Aldeia-Escola-Floresta, em Ladainha-MG, a Teia dos Povos se colocou à disposição dos Tikmũ’ũn para apoiar o processo de recuperação dos 6.433 hectares de território, que somam toda a área em que estão presentes suas comunidades. Iniciamos um trabalho piloto de intercâmbio e formação em agroecologia entre os Tikmũ’ũn e os agricultores do Assentamento Terra Vista (BA), que carrega a potência da transição agroecológica alcançada ao longo de seus 31 anos de história. Nos diversos intercâmbios realizados, Mestre Joelson, conselheiro da Teia dos Povos da Bahia e liderança do Assentamento Terra Vista, reafirmou o compromisso da Teia com a luta pela conquista das terras ancestrais dos povos Tikmũ’ũn, relembrando que os primeiros passos são a terra e o combate à fome plantando alimentos. 

Como conquista da luta secular dos Tikmũ’ũn, nasceu esse ano o “Projeto Hãmhi – Terra Viva: Mães e pais da Floresta”, cujo principal objetivo é formar 30 agentes agroflorestais indígenas (AAFI) Tikmũ’ũn, que implementarão quintais agroflorestais em áreas de recuperação ambiental, produzindo alimentos, conservando e protegendo florestas, formando redes de coletores de sementes, construíndo viveiros educativos e fortalecendo práticas comunitárias de educação ambiental e etnodesenvolvimento. Ao final, serão implementados 60 ha de SAFs e 300 ha de áreas de reflorestamento, aliando conhecimentos tradicionais aos princípios da agroecologia na recuperação ambiental de suas terras e na reconquista da soberania alimentar. 

CAMPANHA DE MUDAS E SEMENTES PARA O POVO TIKMŨ’ŨN (MAXAKALI):

Esse é um chamado para os núcleos e elos das Teias espalhadas pelo Brasil, as redes de guardiãs de sementes, coletivos agroecológicos, agricultores, cooperativas, institutos de pesquisa, universidades e pessoas interessadas em somar com nossa luta!

Sabemos que a defesa dos territórios dos povos originários deve ser uma tarefa de toda gente de luta deste país. Que é preciso construir comitês de solidariedade ao povo Tikmũ’ũn para garantir que não fiquem vulneráveis aos avanços da pecuária, do agronegócio e das políticas de morte. É preciso reafirmar as alianças ancestrais dos povos pretos, indígenas e populares, construídas com a partilha de mudas e sementes crioulas, no sonho, na escuta da Mãe-Terra e no compromisso com a memória, a soberania alimentar, hídrica e cultural, pela autonomia dos povos!

Nessa grandiosa missão de reflorestar os 6.433 hectares do território Tikmũ’ũn (divididos em cinco comunidades), estamos priorizando a doação de sementes de alimentos de curto à médio prazo (milhos, feijões, melancias, melões, ramas de batata e outras), que possam garantir uma subsistência básica nas roças de cada família. Além disso, buscamos mudas de hortaliças, mandioca, plantas medicinais, árvores frutíferas e florestais nativas

Para além desta urgência de garantir soberania alimentar, pedimos que nos informe quais espécies você poderia partilhar, para que possamos realizar um mapeamento e armazenar para futuros plantios ou utilizar nesse reflorestamento.

PONTOS DE RECEBIMENTO:

Organizamos pontos de recebimento espalhados por Minas Gerais e Bahia. Para enviar suas sementes e mudas, escolha um ponto listado abaixo e informe o envio em nosso email ou Instagram, com as seguintes informações: 

– Nome; Território;Município; Espécie; História da Muda/Semente; Agricultores (as); Ponto de Coleta

– No espírito da partilha ao povo Tikmũ’ũn, também incentivamos o envio de um vídeo de apoio à campanha e ao reflorestamento dos Tikmũ’ũn, compartilhando o seu nome, em qual território e cidade se encontro, qual semente que está enviando e a história dessa semente.

PONTOS:

– Teófilo Otoni (MG) → SEDE DO PROJETO HÃMHI: Rua Olegário Lima, nº 40, bairro São Jacinto, 39801-235

– Bertópolis (MG) → SUPERMERCADO COELHO (Rua Governador Valadares, 426, cep 39875-000)

– Belo Horizonte (MG) → NÚCLEO LIXO ZERO: Rua Anhanguera 177, Santa Tereza

– Milho Verde (MG) → VIVEIRO DE MUDAS – APA ÁGUAS VERTENTES: RUA DO CAMPO, 125 – Milho Verde, Serro (segunda a sexta, de 8h00 às 17h00)

– Arataca (BA) → ASSENTAMENTO TERRA VISTA, Zona Rural, Sem numero – Arataca, Bahia (45695-000)

– São Paulo (SP) → HORTA DA NILDA: R. Engenheiro Guilherme Cristiano Frender 373 – Aricanduva, São Paulo.

– Caraguatatuba (SP) → HORTA COMUNITÁRIA DO ALTO DO JETUBA: R. José Garcia da Fonseca 589 – Capricórnio III, Caraguatatuba

– Caraguatatuba (SP) → ETEC SÃO SEBASTIÃO: Rua Benedito Zacarias Arouca, 462, Sumaré – Caraguatatuba

– Bauru (SP) → ARMAZÉM DO CAMPO: R. Araújo Leite, 5-47 – Centro, Bauru – SP, 17012-055

– Itatiaia (RJ) → FAZENDA DA SERRA: Fazenda da Serra na Estrada Fazenda da serra, s/n Bairro Fazenda da Serra – Itatiaia RJ

– Recife (PE) → ESPAÇO GRIS: Rua Diogo Barbosa MachadO, 15 – Bairro Várzea

– Recife (PE) → COLETIVO CARANGUEJO TABAIARES: Rua Felipe Moura, 135A a 109A – Bairro Afogados

– Piãta/Chapada Diamantina (BA) → ESCOLA DAS ÁGUAS NASCENTES: Fazenda Flor de Café, Malhada de Areia, Piatã, Chapada Diamantina

– Caruaru (PE) → ESPAÇO MANIVA: Rua Olha pro Céu, 341, Casa 2 – Vizinho ao parque das Baraúnas

– Caruaru (PE) → FEIRA DA AGRICULTURA FAMILIAR – BARRACA DE DONA ZEZÉ E SEU ALOÍSIO (TAPIOCA): Em frente à ACIC, vizinho ao Grande Hotel

Seu território pode ser um ponto de recebimento na região? 
Tem alguma dúvida ou quer mais informações de como pode ajudar?

Envie um email para teiadospovosmg@hotmail.com ou uma mensagem em nosso Instagram (@teiadospovosmg)!

Entre em contato via telefone e Whatsapp: 31 7531-8113 (Guilherme)

Para a realização dessa campanha, além das mudas e sementes, precisamos de recursos financeiros para realizar o transporte e outros gastos relacionados. Você pode contribuir dessa forma através do PIX: teiadospovosmg@gmail.com

CONTRIBUA PARA A AUTONOMIA ALIMENTAR E A SOBERANIA CULTURAL DO POVO TIKMŨ’ŨN! REFLORESTANDO E CURANDO A TERRA!

REFERÊNCIAS:

Hãmhi – Terra Viva: Mães e pais da Floresta (sementemg.org)

FUNDAMENTOS: Rede de Sementes da Teia dos Povos – Teia dos Povos

Solidariedade aos Maxakali da Aldeia Nova em Ladainha (MG) – Teia dos Povos

CAMPANHA: Fundo solidário para a Aldeia-Escola-Floresta Yãy Hã Mĩy (“Fazer a transformação”) – Teia dos Povos

Das nossas histórias e retomadas: a tradicional batata-doce do povo Tikmu’un Maxakali – Teia dos Povos

Ramas que tecem a vida: a história das batatas enviadas ao povo Maxakali – Teia dos Povos

Retomada Maxakali ocupa terra para construir a Aldeia Escola Floresta – Teia dos Povos

​​​​​​Um encontro na Aldeia-Escola-Floresta – Teia dos Povos

Maxakali no Terra Vista: agroecologia, sementes e festa – Teia dos Povos

Continuidade da formação em Agroecologia para o povo Maxakali – Teia dos Povos

Fortalecendo a aliança entre a Teia dos Povos e a Aldeia-Escola-Floresta – Teia dos Povos

Carta da Pré-Jornada de Agroecologia de Minas Gerais: Eduka-ação das Ngoma – Teia dos Povos

Leave a Comment