Posted on: 14 de junho de 2026 Posted by: Teia dos Povos Comments: 0

Cusco/Cidade do México, 12 de junho, 2026 @la_abigarrada | https://laabigarrada.com/

Para compreender o que está acontecendo hoje no Peru, não basta olhar para a contagem dos votos. Numa conversa com [la abigarrada] Daniela Ortiz, artista e ativista peruana, esta apontou o FUJIMORISMO como uma estrutura jurídica, institucional e mediática que, há décadas, está ao serviço das elites conservadoras no Peru.

Isto permite-nos aprofundar a lógica por trás das contestações dos votos na guerra pós-eleitoral que se vive atualmente no Peru, o desrespeito pelo voto do sul andino e a ferocidade com que o fujimorismo defende uma ordem que sabe estar ameaçada.

O fujimorismo como estrutura de poder colonial

Keiko Fujimori, candidata da ultradireita e filha mais velha e herdeira política do ditador Alberto Fujimori, acaba de disputar a sua quarta eleição presidencial consecutiva. Perdeu em 2011 contra Ollanta Humala, em 2016 contra Pedro Pablo Kuczynski e em 2021 contra Pedro Castillo. Em 2026, com 96% da contagem oficial, o candidato de esquerda Roberto Sánchez mantinha uma vantagem mínima de 50,05% contra os 49,94% de Keiko Fujimori.

A contagem rápida da Ipsos — uma ferramenta comumente utilizada no Peru —, no final do dia das eleições, revelava uma tendência favorável a Roberto Sánchez. Mas o fujimorismo não esperou pelos resultados definitivos. Iniciou imediatamente o processo de contestação dos votos nas zonas onde Roberto Sánchez detém uma vantagem esmagadora: Puno, Cusco, Apurímac e Ayacucho. Na contagem geral, a margem é tão estreita que a anulação de algumas atas rurais poderia inclinar a balança. E o fujimorismo sabe disso.

Como sinaliza Daniela Ortiz, «o fujimorismo não é apenas um partido político. É uma estrutura de poder construída ao longo de décadas que inclui o aparato jurídico, institucional e mediático». Keiko Fujimori herdou do pai não só um sobrenome e um capital simbólico, mas também uma máquina institucional que permite a perseguição política contra os seus adversários.

O fujimorismo cooptou o Congresso, o Poder Judicial e a Defensoria do Povo. Por isso, não precisa de ganhar a presidência para controlar o Peru. Já controla o Legislativo e grande parte do sistema judicial. A presidência de Keiko Fujimori seria apenas a consagração de um poder que já exerce de facto. A partir do Congresso, o fujimorismo destituiu mais de oito presidentes nos últimos anos, alterou leis para aumentar o seu poder e nomeou funcionários afins em todas as instituições-chave. O Peru teve oito presidentes em dez anos. Em quase todas essas crises, a bancada fujimorista esteve por trás.

A guerra das contestações: o campo de batalha pós-eleitoral

As contestações do voto em massa não é uma tática nova. Trata-se de uma guerra jurídica dirigida a territórios específicos: o sul andino, o «Peru profundo», onde o voto anticolonial é massivo. Daniela Ortiz adverte: «As contestações em massa são uma estratégia sistemática do fujimorismo para disputar nos tribunais aquilo que não consegue ganhar nas urnas». Em 2021, Keiko Fujimori não reconheceu a sua derrota perante Pedro Castillo e enviou equipas de advogados para cidades andinas para «provar a fraude nas mesas de votação», sem apresentar provas. Em 2026, o padrão repetiu-se com maior intensidade.

A alteração da lei eleitoral para que os votos do estrangeiro chegassem mais tarde não é um acidente logístico. O Congresso, controlado pelo fujimorismo, alterou a regulamentação semanas antes das eleições. O resultado: os votos do estrangeiro — que favorecem de forma esmagadora Keiko Fujimori — foram os últimos a ser contabilizados. Isto cria uma «narrativa de recuperação» que o fujimorismo utiliza para semear suspeitas sobre o processo. O fujimorismo já começou a destituir juízes no contexto pós-eleitoral, o que sugere que o Jurado Nacional de Eleições poderá não ser um árbitro imparcial.

A vitória do povo já aconteceu

Não nos esqueçamos de que Pedro Castillo venceu as eleições de 2021. E o fujimorismo não aceitou isso e agora Castillo está preso por ter vencido. Porque o fujimorismo não consegue conceber que um professor rural possa ocupar o Palácio do Governo em Lima. Isso, para as elites crioulas, é imperdoável.

Roberto Sánchez apresenta-se como o herdeiro direto de Castillo, tendo proposto enfrentar a condição colonial em que vive o Peru e refundar o Estado através da convocação de uma assembleia constituinte do povo. Para o fujimorismo, Sánchez é uma ameaça. Mas o fujimorismo é apenas a ponta de lança de uma contraofensiva continental da extrema-direita, na qual o papel do indígena não é decidir, mas sim obedecer.

O sul andino já mostrou o caminho. A vitória do povo já aconteceu.

Cusco/Cidade do México, 12 de junho, 2026 @la_abigarrada | https://laabigarrada.com/
[la abigarrada] agradece à Daniela Ortiz pela generosidade.

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