Posted on: 30 de abril de 2026 Posted by: Teia dos Povos Comments: 0

Acácio Augusto[1]

Frases ditas pelos anarquistas no momento da execução,

em novembro de 1887:

Haverá um dia em que nosso silêncio será mais poderoso

do que as vozes que vocês estrangularão hoje

August Spies

Viva a anarquia! Este é o momento mais feliz da minha vida!

Adolph Fischer

Viva a anarquia!

George Engel

A luta na Praça do Haymarket

A história não se repete. Nem como tragédia, nem como farsa. Ela se faz como o feixe de lutas que move as pessoas pela vida em sua expressão mais livre e potente. Não há lei ou ciência que governe isso, pois em todo lugar que haja alguém ou algum grupo que queira mandar, a revolta explodirá desobediente como resposta e afirmação da vida livre. Por isso, diante de uma data tão marcante, precisamos nos perguntar qual o sentido de rememorar aquele longínquo ano de 1886 quando, nos EUA, as mobilizações dos trabalhadores pela redução da jornada de trabalho culminaram na revolta na Praça do Mercado de Feno (Haymarket), duramente reprimida pela polícia que executou pelo menos 10 pessoas?

Neste episódio, a morte de um policial, no dia 04 de maio, tombado ao final da manifestação, em condições nunca esclarecidas e tomada como um atentado terrorista contra o Estado, serviu para a condenação de oito anarquistas. Quatro companheiros, August Spies, Albert Parsons, Adolph Fischer e George Engel, foram enforcados em praça pública no dia 11 de novembro de 1887, dia conhecido como a sexta-feira negra. Louis Lingg, de 22 anos, não esperou a execução estatal e deu cabo da própria vida em sua cela com um detonador de cápsula na boca. Os cinco anarquistas mortos ficaram mundialmente conhecidos como os Mártires de Chicago. Foi a condenação dos oito e a execução desses quatro anarquistas que despertou a solidariedade internacional, tornando célebre o 1º de Maio como uma data de luta e resistência dos trabalhadores.

Na verdade, será anos depois que o episódio da revolta na Praça Haymarket virará referência da luta dos trabalhadores pela redução da jornada de trabalho, estabelecendo mundialmente o Primeiro de Maio como Dia do Trabalhador. Mas o combate que se desenrolava ali não se reduzia a conquista de direitos e/ou a busca por melhorias de vida com regulamentação trabalhista. Tratava-se de um combate amplo e disperso, em um mundo convulsionado por guerras e concentração de poder e de capital, contra o qual anarquistas lutavam para destruir, enquanto estavam a construir um mundo novo, aquele que, anos depois, Buenaventura Durruti dirá que carregamos em nossos corações e que estava a crescer a cada dia com os feitos da Revolução espanhola (1936-1939).

Por volta de 1886, o mundo passava por amplas transformações sociais e econômicas decorrentes da Revolução Industrial, que se expressavam em poderes políticos imperiais projetos por todo mundo pelo crescimento do gigantismo estatal e suas hostilidades no continente europeu. As cidades cresciam rapidamente, impulsionadas pelo desenvolvimento das fábricas e do comércio, enquanto as condições de trabalho eram duras e marcadas por jornadas extenuantes, exploração do trabalho de mulheres e crianças, baixos salários e pouca proteção laboral, que provocavam mortes e mutilações. Movimentos operários e sindicalistas começavam a se organizar em vários países em vistas de retomar para si o controle de suas vidas e das pessoas que amavam. Além disso, o contexto político global era instável, com tensões entre classes sociais e frequentes protestos, especialmente nos Estados Unidos e na Europa, além de uma guerra mundial que se avizinhava e estouraria em menos de três décadas. O clima geral era de efervescência e a luta por liberdade e igualdade ganhava força entre diferentes grupos populares contra os Estados e seus monopólios nacionais construídos às custas da vida de trabalhadores e trabalhadoras, além da exploração extensiva de regiões inteiras do planeta para extração dos chamados recursos naturais para a produção industrial – da extração de minérios, especialmente petróleo, às grandes monoculturas com trabalho escravizado ou análogo, promovendo massacres em massa em continentes como a África, a Ásia e a América Latina.

A guerra pelo mundo e a diversidade das lutas anarquistas

Neste cenário, os movimentos anarquistas cresciam no mundo todo como forma de organização e de luta dessas classes populares, certamente os mais relevantes e atuantes até a Primeira Guerra Mundial (1914) e a Revolução Russa (1917). Muito mais do que lutar por direitos trabalhistas, revoltas como a da Praça Haymarket buscavam a construção de um modo de vida livre do Estado, da centralização de poder, da burocratização, das mistificações religiosas e da homogeneização da vida social, expressa pelo trabalho nas fábricas, pela vida nas cidades e pela expansão das formas de governar grandes contingentes humanos como massa. Os grupos de afinidade e sindicatos anarquistas eram a realização em ato dessa outra vida que se construía em luta contra o Estado e o Capital. Mais do que isso, uma luta pela diversidade da existência e das formas de viver, contra uma sobrevivência embrutecida pela disciplina fabril, padronizada pela arquitetura das cidades, unificada pelos nacionalismos e violentada pelas polícias e os exércitos, que perseguiam, prendiam, matavam e faziam a guerra em nome dos interesses de proprietários, patrões, banqueiros, políticos e militares.

A luta não buscava a vitória e a redenção da “classe universal” (o proletariado), mas se fazia para abrir caminhos, derrubar muros, para que formas de existência que estavam sendo massacradas pelo estatismo e pelo industrialismo pudessem existir em liberdade: o camponês livre e dono de seus instrumentos e conhecimentos para trabalhar a terra; o artesão urbano, senhor de sua oficina e ferramentas, com seus saberes e destrezas específicas; ou mesmo uma ampla gama de existências marginalizadas e perseguidas pelas forças da ordem (o exército e a polícia), desqualificadas como lúmpen, inclusive por organizações e partidos socialistas.

É essa forma de fazer e de encarrar a luta que leva os anarquistas a serem os primeiros a colocarem questões que se tornariam decisivas ao longo do século XX e o são até hoje. Emma Goldman, por exemplo, uma anarquista russa, de origem popular, radicada nos EUA e que aderiu aos movimentos anarquistas justamente sob efeito da tragédia na Praça Haymarket, será uma das primeiras a colocar em luta a questão da mulher nas sociedades modernas, não apenas como cidadã de segunda classe, mas como trabalhadora e seus papeis socialmente impostos como mãe, dona de casa, esposa, que cerceavam sua liberdade sobretudo no que se refere a suas relações amorosas e práticas sexuais. Goldman colocava essas questões em oposição ao emergente feminismo sufragista, que ela identificava como a farsa da emancipação feminina, pois seu efeito era justamente a emancipação política da mulher, incorporando-a no sistema de dominação estatal e de exploração industrial, com papeis análogos aos dos homens, inclusive nos esforços de guerra. Posições próximas às de Goldman na luta das mulheres serão expressas no Brasil em textos da anarquista Maria Lacerda de Moura.

Outros temas como a devastação ecológica, promovida pelo industrialismo e o extrativismo mineral, serão alvo de militantes anarquistas como Piotr Kropotkin e Élisée Reclus, diante dos quais não se buscará uma preservação da natureza, mas outras formas de se relacionar com ela, não mais como uma exterioridade a ser dominada pela ciência do homem, mas como parte da vida, o que implica repensar a alimentação, as formas de habitação, os conhecimentos sobre o chamado meio natural, sem a mediação de hierarquias científicas, atento às formas de apoio mútuo e solidariedade entre todos os seres viventes: animais, vegetais e minerais. A luta contra a exploração e dominação do capitalismo industrial e do Estado, implicava, para anarquistas, construir outras formas de existência e outras formas de viver e de se associar aos viventes desta terra, humanos e não humanos.

Essas lutas, desenroladas em meio ao combate dos sindicatos e associações anarquistas, não eram vistas pela militância como questões adjacentes ou complementares da luta operária, mas faziam parte da experimentação de outras formas de viver em meio à construção do mundo novo. Por isso que, ao olhar para a história, as práticas anarquistas sempre sobressaem como pioneiras no que diz respeito à educação, aos costumes, às relações amorosas, às formas de mobilização, ao sexo, à diversidade de táticas, à diversidade organizacional, às formas de imprensa e edição de livros e revistas, à alimentação, às intervenções sociais, dentre outras formas de fazer e viver a anarquia.

Para além da jornada de trabalho

Por isso, ao rememorar o Primeiro de Maio, é preciso lembrar que não se tratava só de uma luta por jornadas de oito hora e que as mobilizações, embora usassem a formulação oito horas de trabalho, oito horas de descanso e oito hora de lazer, estava voltada para a necessidade de transformação da vida e pela liberação de outras formas de existência que não cabiam no industrialismo, no nacionalismo, no urbanismo e no militarismo vigente e em expansão. Era uma luta, para lembrar Pierre-Joseph Proudhon, contra o regime da propriedade. E isso se dava pelo emprego da ação direta e da propaganda pela ação. Nunca foi uma luta por ampliação da democracia ou por inclusão social, no sentido de aumentar a participação das pessoas na política, de amplificar a gestão estatal na vida dos trabalhadores ou de garantir que o Estado estivesse sob controle dos cidadãos e das cidadãs, tampouco que conferisse ao Estado maior poder de regulamentação da atividade laboral.

Era, portanto, uma luta antipolítica, que rejeitava a representação dos interesses das pessoas e a fé no sufrágio universal como via de construção da igualdade social, ao mesmo tempo em que criava meios para que as pessoas estivessem diretamente implicadas nas decisões que envolvessem sua vida e seu trabalho. A criação de associação de trabalhadores e grupos de afinidade visava não o avesso da política, mas se opor à política como tecnologia que instituía, não apenas no Estado, o governo de uns sobre os outros ou do Um sobre todos. Esse era o sentido da ação direta e da autogestão como antipolítica. O papel dos sindicatos, das associações operárias e das associações de ofícios vários, dos centros de cultura, das escolas, teatros e grupos de estudos libertários não era ampliar o controle social do Estado, mas criar meios para que as pessoas vivessem, para além do governo e do Estado, com seus meios próprios e pudessem se associar a outras na realização deles. As formas individuais e coletivas de estar no mundo, para anarquistas, não carecem de mediação, regulamentação, direção ou tradução políticas, elas se constroem no embate direto e franco entre associados em torno de uma realização específica, que se esgota em si mesma, não há espaço para partidos, direções sindicais, líderes carismáticos, diretores morais ou condutores de consciência. Os meios de fazer a luta contra o Estado e o capitalismo continham, em si, a forma mesma que se buscava construir.

Essa luta, que ganhou projeção com as condenações e as execuções perpetradas pelo Estado dos EUA, estava espalhada por todo planeta, não só em solidariedade aos campainheiros do Norte, mas tomando suas formas próprias. No Brasil, ela rapidamente se traduziu em centenas de associação de trabalhadores, sindicatos e federação de sindicatos, centros de cultura social, meetings e piqueniques de trabalhadores anarquistas, escolas racionalistas que, fizeram, por exemplo, a Greve Geral de 1917 em São Paulo. Tudo, hoje, fartamente documentado por pesquisas historiográficas que podem ser facilmente encontradas. Esse mesmo vigor da luta anarquista que se formava no final do século XIX, produzirá, décadas depois, na Espanha, uma experiência de autogestão tão impressionante que assustará as democracias liberais, os regimes fascistas e o bolchevismo na Europa de tal maneira que, às portas da Segunda Guerra Mundial, os Estados europeus agirão de forma combinada para que a guerra sufoque a revolução dos sindicatos anarquistas e da Federação Anarquista Ibérica (FAI). A Revolução espanhola que, neste 2026, completa 90 anos, é, de longe, o mais importante e decisivo acontecimento do século XX, pois foi a culminância de uma série de lutas pela transformação da vida, que efetivamente a transformou entre 1936 e 1939, mas foi massacrada pela guerra, pelo fascismo, pelas democracias liberais e pelo centralismo democrático dos bolcheviques.

A memória do 1º de maio que interessa

O sentido mais potente de se rememorar o primeiro de maio de 1886 (que a essa altura se percebe que não se trata apenas de um dia) começa por não reduzir essas lutas a uma mera melhoria e proteção das condições laborais, mesmo porque a consolidação das leis trabalhistas que se seguiram a elas foi a forma pela qual os Estados, além da repressão policial e judiciária, neutralizaram e capturaram toda a força de transformação da existência mobilizada pelos anarquistas.

O exemplo mais próximo e evidente é quando Getúlio Vargas, após a criação das leis trabalhistas, cria sindicatos corporativos ligados ao Estado, reprime duramente os movimentos anarquistas com a criação do DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) e transforma o 1º de maio em Dia do Trabalho. Por isso que, mais importante que o registro histórico e causal da data tornada cívica pelos Estados protofascistas, como no caso brasileiro, é preciso reativar a memória dessas lutas como algo presente, como algo vivenciado no passado, mas capaz de irromper no hoje como uma fissura que poderá rasgar o tecido uniforme das representações históricas: “O” Trabalhador, “O” Trabalho, “A” Jornada de trabalho, “A” conquista das oito horas… Essas formas de representação dos fatos históricos, ordenados e racionalizados como uma cadeia de acontecimentos irresistíveis e progressivos, visam pacificar a memória de uma luta imediata, imanente, sob condições desfavoráveis, mas que foi feita e produziu os seus efeitos. Trazer a memória dela é vivenciá-la para além da efeméride e reviver toda a potência contra o que hoje se declara em condições desfavoráveis e impossíveis, é honrar os que viveram tão intensamente essa luta que acabaram sendo arrastados para a forca e, mesmo no momento derradeiro da morte, gritaram: “Viva a anarquia!”, com os pés no cadafalso. 

Hoje, o mundo também se encontra convulsionado em guerras e massacres extensivos perpetrados por policiais, militares, milicianos, sicários, mercenários, empresas de segurança privadas legais e ilegais, que fazem uma guerra difusa e espalhada, diferente daquelas do final do século XIX e começo do século XX, matando mais, em maior escala e indiscriminadamente. Há guerras no Curdistão, na Ucrânia, no Sudão, no Saara, na Palestina, no Irã, nas periferias e morros dos grandes centros urbanos, nas regiões rurais dos países do chamado Sul Global. Como anotou certa vez Proudhon, “a sociedade é a ordem, o Estado é a guerra civil”. Mas hoje, essa guerra civil é planetária, regulada por acordos e desacordos que se desfazem com mesma velocidade com que se fazem, ao sabor dos interesses imediatos e dos dissabores mediáticos e opinativos. Enquanto isso, megacorporações legais e ilegais, concentram cada vez mais poder e renda e têm, a um clique de distância, a vida e a morte de milhões e milhões de pessoas nas mãos. A carestia de vida é ampla e crescente nos centros urbanos, inclusive do chamados países ricos, e atinge setores sociais que se acreditavam protegidos até bem pouco tempo, fomentando rancores e ressentimentos de todo o tipo, gerando ainda mais violência entre os governados e disposição para serem violentamente governados por uma série plural de formas violentas de governo. A destruição do planeta e de formas vida que não se adaptam ao modo dominante é evidente, mas não abala os investimentos, planos e planejamentos de desenvolvimento e expansão, muitas vezes edulcorados como sustentáveis da capacidade de produção e de extrativismo extensivo e voraz.

Por tudo isso que vivemos hoje, o Primeiro de Maio precisa ser lembrado para além da luta trabalhista, ele precisar ser memória viva. Se há algum sentido em recobrar a memória de lutas anarquistas travadas em um mundo tão diferente do que vivemos hoje, ele está em rememorá-lo como uma luta pela transformação da vida, como um embate que se deu de forma simultânea às experimentações de outras formas de viver e fazer a luta: pela ação direta, a autogestão, a recusa dos direitos estatais e a defesa de outras formas de produzir, segundo saberes próprios, heterogêneos e heterodoxos, formas antipolíticas. Se lá estava em jogo barrar a centralização de poder, a burocratização da vida, as mistificações religiosas e a homogeneização da vida social, era porque se sabia que não se tratava apenas das condições de trabalho na fábrica, poderia partir dela, mas a luta produzia efeitos que a ultrapassava, assim como os combates se faziam como campo fértil para experimentação de outras modos de vida.

Hoje, a forças de centralização de poder seguem atuando (Estado, burocracia estatal e privada, homogeneização da vida urbana e mistificações religiosas), ainda que de forma modal e por demanda, mas urge abrir caminho para vidas não alinhadas que possam existir e se expandir, para que o mundo novo que trazemos em nossos corações seja possível aqui e agora. Na verdade, para que se possa vivenciá-lo a despeito das chamadas condições objetivas ou análises de conjuntura (sic), que não sessam de repetir que o mundo está acabando e que devemos salvá-lo. E se não houver nada que deva ser salvo?

Em um mundo em que o trabalho vazou os muros da fábrica e tomou conta de toda a existência, já que as pessoas carregam seu trabalho no bolso, temos de aprender com as mobilizações anarquistas em Chicago: a luta pode partir de uma questão específica, mas ela deve estar voltada à transformação da vida e só produzirá efeitos se estiver em meio as formas outras de existir e de se associar aos outros viventes da terra, de forma antipolítica e pela ação direta para a construção de experiências autogestionárias.


[1] Pai do Tomás, palmeirense e anarquista que vive em São Paulo, Brasil. Professor no Departamento de Relações Internacionais e no Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais: Estudos do Sul Global da UNIFESP, Campus Osasco, onde coordena o Laboratório de Análise em Segurança Internacional e Tecnologias de Monitoramento (LASInTec) na UNIFESP. Autor dos livros “Anarquia y lucha antipolítica – ayer y hoy”. Barcelona: NoLibros, 2019 e “Política e polícia: cuidados, controles e penalizações de jovens”. Rio de Janeiro: Lamparina, 2013. Coautor, com Edson Passetti, de “Anarquismos e Educação”. Belo Horizonte: Editora Autêntica, 2008.

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