Posted on: 14 de setembro de 2020 Posted by: Teia dos Povos Comments: 0

*Por Cauê Bráz

A importância do agronegócio na economia brasileira é responsável pela alteração da paisagem do meio rural onde a penetração do capital financeiro é cada vez mais significativa. A financeirização do sistema agroalimentar avança na medida em que atividades produtivas passam a depender da remuneração dos acionistas, ou seja, a finalidade não está no que se produz, nem no que é consumido. O lucro é primordial, assim, é dada a preferência para a especulação nos mercados futuros com derivativos de commodities e conversão da terra e da natureza em ativo financeiro, aquecendo o mercado imobiliário rural. A lucratividade na economia do agronegócio ocorre cada vez mais por meio de canais financeiros, e não através de atividades produtivas. Esse processo tem alterado o uso da terra e influenciado o apoio de agricultores familiares através de políticas públicas dando margem para uma crise alimentar que se aproxima com o favorecimento do ganho especulativo para o capital financeiro em terras agrícolas. No Brasil, as áreas mais delicadas são o Mato Grosso, Pará e o Matopiba onde o nível de preços da terra cresce juntamente com a degradação ambiental.

Observando as atividades agrícolas na Bahia, os dados da Produção Agrícola Municipal  no IBGE mostram o movimento de redução de diversas lavouras temporárias para os anos de 2015 e 2018. Destaca-se a redução de milhares de hectares da área plantada de diversos gêneros agrícolas alimentares com destaque para feijão (menos 200 mil hectares), milho (menos 180 mil hectares) e mandioca (menos 150 mil hectares) e a soma das lavouras desses produtos não alcança os 1,6 milhões de hectares de soja plantada que avançou 200 mil hectares no mesmo período. No estado, a soja tem forte presença no Extremo-Oeste Baiano e começa a ingressar na região Centro-Sul. Em relação das lavouras permanentes, nota-se que o cacau e café, produtos financiados pelo Pronaf, também sinalizam retirada do território com destaque da região Sul e Centro-Sul. Essa região também apresentou a saída da produção de manga que teve a retirada de 5,5 mil hectares de área plantada do Centro-Sul para 9 mil hectares no Vale São Franciscano da Bahia, ao total, o plantio de manga no período evoluiu de 21 mil para 24 mil hectares. Por sua vez, os dados da Matriz de Dados de Crédito Rural do Banco Central indicam que o agricultor familiar escolhido para ter sua produção fortalecida pelo crédito do Pronaf no ano de 2019 é aquele que produz milho. No estado, foram destinados R$ 70 milhões para o programa, mais da metade foi direcionada para as lavouras de milho. Os outros produtos que se destacam são café, feijão, manga e cacau. Esses dados demonstram que o desenvolvimento da agricultura na Bahia registrada pelos documentos oficiais apresenta um afunilamento para uma produção mais especializada desagregando produtores e consumidores. Os órgãos estatais apoiam os produtores aptos em auxiliar no acúmulo de capital na cadeia do agronegócio.

O recente veto do Projeto de Lei (PL) 735/2020 é mais uma demonstração dessa crise de valores que compromete as escolhas que favorecem a mercantilização da natureza e a marginalização dos povos do mato. Diante disso é preciso pensar em formas de re-territorializar o sistema agroalimentar. O atual momento da agricultura brasileira mostra que a agenda da reforma agrária está suspensa desde 3 de janeiro de 2019. A violência no campo segue sua radicalização e urge o fortalecimento de alternativas que garantam a sobrevivência diante da crise civilizatória que se aproxima. A cidade precisa perceber que sem o campo ela não come. Os consumidores urbanos são diretamente impactados pela desigualdade rural por meio da alimentação. O preço dos alimentos tem pressionado o orçamento da população de baixa renda. Desde o início da pandemia 9 milhões de brasileiros deixaram de comer por falta de dinheiro. A demanda por alimentos abre uma janela para união dos movimentos sociais do campo e da cidade para a reconexão da produção e consumo dos alimentos e isso se concretizará com o suporte das agendas das organizações que lutam contra o latifúndio e a financeirização promovendo a junção de abordagens alimentares com saúde humana e o debate do colapso ambiental com ênfase na manutenção dos trabalhos rurais na produção de alimentos de qualidade e acessíveis. Para garantir a segurança alimentar e nutricional no Brasil é indispensável valorizar os agricultores familiares que abastecem as complexas cadeias de alimentos assegurando a conservação dos recursos naturais que sustentam o sistema agroalimentar.

Para as experiências da agroecologia e da soberania alimentar alcançarem resultados mais duradouros é necessário vislumbrar para além da construção de mercados que aproxime a produção e consumo de alimentos. A venda direta e feiras são importante, mas a proteção de nossa infraestrutura primordial, a natureza, depende de avanços na gestão territorial. Tornando a manutenção da agricultura um fim em que essa prática não seja reduzida a um meio para negócios cujos interesses estão nos centros financeiros. Isso requer um trabalho coletivo dos movimentos sociais em diálogo, no campo e na cidade, massificando a ideia de que para um sistema agroalimentar sustentável é primordial o controle da terra. Antes de ser um fator de produção, a terra é o solo onde se reproduz a vida. A defesa dos ecossistemas brasileiros não virá a partir do aparato do Estado e sim pela pauta de uma alimentação saudável que centraliza a ocupação dos povos e comunidades tradicionais nos territórios por possuírem o acúmulo de saberes para viver com a riqueza oferecida por nossa biodiversidade. Unindo alimentação, natureza e sociedade tendo como alvo o cuidado de nossa saúde e formas de retirar as pessoas da dependência das grandes corporações do setor agroalimentar. Pode-se executar o plano de aproximar consumidores e produtores de alimentos acessíveis, com baixo impacto ambiental e, principalmente, eliminando intermediários cujo interesse é o alimento do próprio bolso por meio do lucro retirado de atividades que colocam em risco a nossa vida.

 

* Sobre o Autor 

Cauê Bráz cresceu gostando do campo de bola e atualmente pesquisa as relações de produção no campo brasileiro. Bacharel em Ciências Econômicas (FCE/UFRGS) e mestrando em Desenvolvimento Rural (PGDR/UFRGS).

 

Leia a primeira parte do texto:

Leave a Comment