Posted on: 28 de julho de 2020 Posted by: arkx Brasil Comments: 5

A luta coletiva contra a violência do Estado e o genocídio do povo pobre e preto.

A Rede de Mães e Familiares Vítimas de Violência da Baixada Fluminense, surgiu em 2005 logo após a Chacina da Baixada.

De início seria uma associação chamada AFAVIVE (Associação de Familiares e Amigos de Vítimas de Violência). Só que decorrer do tempo as pessoas que iriam formar esta associação se dispersaram e se desmobiliaram.

Sem apoio e o mínimo de estrutura, esta iniciativa não saiu do papel.

Assim, alguns familiares continuaram a participar de encontros no Rio, com a Rede de Comunidades e Movimentos contra a Violência. E também na Baixada, através do CDH (Centro de Direitos Humanos) de Nova Iguaçu, e do Fórum Reage Baixada, que surgiu por causa da Chacina.

As mães e os familiares participaram de vários eventos. Encontros, eventos, audiências públicas.

Mas com o passar do tempo, muitos se afastaram e enfraqueceram o Fórum.

Com o crescimento de casos de violência letal na Baixada, houve uma nova formulação do Fórum. Passou a se apresentar como Fórum Grita Baixada. Para exteriorizar o que acontece nas regiões da Baixada Fluminense, focando na violência letal e nas várias formas de violação de Direitos, e também nas várias formas de violência que o Estado comete.

Sendo assim, o CDH da Diocese de Nova Iguaçu elaborou um projeto, com apoio do Fundo Brasil de Direitos Humanos e a Misereor, chamado Projeto Litigância – o Brasil dentro do Brasil pede socorro. Com objetivo de potencializar o acolhimento e amparo psicológico e jurídico a estas mães.

Com este apoio consolidamos o surgimento da Rede de Mães, que hoje atua como movimento e não instituição.

Além de acolher, a Rede tem como objetivo lutar pelo direito à memória e justiça, a garantia de políticas de saúde, reparação psico-social e econômica.

Entre as ações que a Rede potencializa estão:

– a terapia psicológica, orientações e encaminhamentos jurídicos;

– visitas a mães e familiares vítimas de violência nas comunidades e periferias da Baixada Fluminense;

– mobilização e articulação de atos públicos pelo direito à memória e justiça;

– realização de rodas de conversa, exibição seguida de debate do documentário “Nossos Mortos tem Voz”;

– acolher e orientar mães do sistema prisional e do sócio-educativo;

– articular com o poder público, nas esferas municipais da Baixada, políticas de atendimento específicas para mães e familiares vítimas de violência;

– ampliar a rede de parceiros, agregando outras instituições, profissionais da saúde, psicologia e assistência social, poder público e judiciário, para encaminhar os acolhidos diante de suas necessidades.

Como somos um movimento e não uma instituição, fazemos também essa incidência política para provocar o poder público a ter um olhar diferenciado em relação as mães e familiares de vítimas de violência.

Hoje temos em nosso grupo várias mães com filhos desaparecidos. Os desaparecimentos forçados são um fato que cresce cada dia mais. É alarmante na Baixada. As mães sabem que seus filhos foram executados, mas não tiveram o direito nem de enterrá-los.

A Rede de Mães se consolidou a partir de um apoio de fora do país, vindo de instituições internacionais ligadas aos direitos humanos a partir de contatos feitos pelo Fórum e o CDH de Nova Iguaçu.

Foi este apoio que a Rede tivesse estrutura para atuar.

Desde que perdi meu filho Rafael de 17 anos na Chacina da Baixada em 2005, eu sentia a necessidade de levantar essa Rede de uma forma concreta.

Na época eu tive um apoio muito grande da rede lá do Rio, que era uma rede já consolidada, que tinha várias mães de comunidades. Elas vieram aqui para a Baixada e prestaram todo apoio para nós.

Comecei a participar de grupos terapêuticos juntos com elas, e vi o quanto isto era importante para as mães, para nós

E não sosseguei enquanto não conseguimos levantar essa rede junto com outras companheiras, principalmente Silvania Azevedo (minha companheira de luta até hoje) e Luzia Márcia Moura (que se afastou por problemas de saúde e pessoais).

Lutamos muito, ocupamos vários espaços em Nova Iguaçu, e em outros municípios daqui, onde ocorriam eventos sobre segurança pública, sobre homicídios, sobre a questão da violência. Sempre marquei presença como mãe de vítima, para todos conheceram a realidade da Baixada Fluminense.

Participam diretamente da Rede cerca de 30 mães. Mas infelizmente a cada dia este número vai crescendo.

E estamos sempre lutando para angariar o apoio que estas famílias precisam para superar as sequelas desastrosas, psicológicas e físicas, de qualquer um que passe por este tipo de violência.

E é isto!

Luciene Silva

mãe de Raphael, assassinado em 2005 na Chacina da Baixada, e militante da Rede de Mães e Familiares Vítimas de Violência da Baixada Fluminense.

vídeo:


sobre os Diários da Pandemia:

  • Embora seja tb um trabalho jornalístico, se propõe a muito além disto.
  • Tem como objetivo principal tecer uma rede de comunicação entre as diversas lutas localizadas.
  • De modo a circular as experiências, para serem reciprocamente conhecidas numa retro-alimentação de auto-fortalecimento.
  • Não se trata de tão somente produzir matérias, e sim tornar as matérias instrumento para divulgar conteúdo capaz de impulsionar os movimentos.
  • Em suma: colocar a comunicação a serviço das lutas concretas.

ver também em Diários da Pandemia:

Movimento Unido dos Camelôs – MUCA-RJ

na linha de frente – Alto Xingu

Wesley Teixeira – Movimenta Caxias (RJ)

Opetahra e a ressurgência do Povo Puri

Luciene Silva e a Rede de Mães da Baixada Fluminense (RJ)

“Sim! Eu Sou do Meio” – Belford Roxo (RJ)

junto ao Povo da Rua no Rio de Janeiro (RJ) – 02

na tríplice fronteira Norte (Brasil-Colômbia-Peru) (AM)

KM 32 – na profundidade da periferia – 02

na linha de frente – Salvador (BA)

Morro do Sossego, Duque de Caxias (RJ) – 02

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