Posted on: 15 de setembro de 2021 Posted by: Teia dos Povos Comments: 0

Enfermeira anarquista explica o que o furacão Ida significa para todos nós


Texto publicado originalmente em inglês em CrimethInc. Esta tradução também encontra-se publicada em CrimethInc.


Passaram-se dias depois que o furacão Ida, uma poderosa tempestade de categoria 4, atingiu o sudeste da Louisiana, e centenas de milhares ainda estão sem energia elétrica. Os esforços de ajuda humanitária em Nova Orleans e arredores estão apenas começando, com áreas que ficam fora do alardeado novo sistema de proteção contra enchentes se encontrando em uma situação muito pior do que as da cidade. Enquanto esperam as autoridades montarem um esforço de evacuação tardio, residentes que optaram por ficar – ou não puderam sair – estão fazendo o possível para sobreviver sem rede elétrica, sem geladeiras, sem água potável e sem acesso a gasolina para carros ou geradores. Muitas pessoas perderam telhados com os ventos de 240 quilômetros por hora.

Conversamos com Sasha, enfermeira anarquista de Nova Orleans, sobre a situação.

As cidades costeiras abrigam uma grande parte da população do país e muito de sua cultura mais amada. Elas provavelmente vão ficar inabitáveis.

Em breve, será publicado um artigo explorando os elementos estruturais que contribuem para agravar os desastres na região, como eles se relacionam com as crises que as pessoas estão enfrentando em todo o mundo e o que podemos fazer a respeito.


Para apoiar diretamente os esforços autônomos de ajuda humanitária em Nova Orleans e arredores, você pode doar para o Grupo de Ajuda Mútua de Nova Orleans e para a Lobelia Commons via Venmo: @NolaMutualAid e @LobeliaCommons. Se você deseja que sua transação não seja visível publicamente, siga estas instruções para usar sua conta no Venmo de maneira privada.


Poderia contar um pouco sobre você e seu relacionamento com New Orleans?

Eu me mudei para Nova Orleans há oito anos, depois de passar meus primeiros vinte anos no nordeste. Trabalho em tempo integral como enfermeira no turno da noite em uma ala médica e cirúrgica de cuidados intensivos em um pronto-socorro próximo ao centro da cidade. Em meu tempo livre, tento apoiar vários esforços de ajuda mútua, bem como lutas trabalhistas e esforços abolicionistas. Pode me chamar de Sasha.

O que está acontecendo em Nova Orleans neste momento?

Pra mim, é difícil para de forma abrangente sobre como estão as coisas agora. Tenho trabalhado durante a noite e dormido durante o dia desde o dia 26/08, três dias antes da chegada do furacão Ida, e não saio do hospital desde a noite anterior à chegada da tempestade. Então, muito do que sei é baseado em uma síntese do que vi no noticiário local, do que fiquei sabendo nas redes sociais e do que ouvi de amigos e colegas de trabalho.

A eletricidade de toda a área metropolitana foi cortada no domingo durante o pico da tempestade devido à queda de uma torre de transmissão. O serviço de telefone celular e de dados ficou um pouco irregular. Os únicos prédios que têm eletricidade e ar condicionado são aqueles com geradores pessoais e instituições endinheiradas, como o hospital onde trabalho, que também têm geradores enormes. Todas as noites, eu vejo o bairro residencial ao lado do centro da cidade a partir de um dos andares superiores do hospital e não vejo nada além de escuridão e um farol de carro passando pela rodovia. Quase não há lojas abertas e não temos como obter gasolina para abastecer veículos ou geradores. Está muito quente e úmido e ninguém tem ar-condicionado ou ventiladores.

A tempestade chegou no aniversário de 16 anos do furacão Katrina e tem desencadeado sintomas de transtorno de estresse pós-traumático em muitas pessoas. O pronto-socorro parece estar cheio de pessoas passando por crises psiquiátricas.

Como as pessoas se prepararam para a tempestade? Qual a extensão das perdas e dos danos até agora?

A tempestade se formou e se intensificou muito rápido, deixando muito pouco tempo para a gente se preparar ou evacuar a cidade. Voltei de uma viagem a Nova York na terça-feira (24/08), que tinha acabado de enfrentar um furacão menor, e não me lembro de ter notado o furacão Ida até o dia 25 ou 26. Na sexta-feira (27/08), muitos já haviam tomado a decisão de evacuar a cidade, pois as previsões sobre a intensidade da tempestade estavam ficando mais terríveis a cada dia. Não tenho como saber com certeza, mas parece que cerca de metade da população da área metropolitana decidiu evacuar. Muitos tiveram que dirigir por até treze horas para encontrar algum lugar para ficar.

Na sexta-feira, o prefeito anunciou que simplesmente não havia tempo para fazer uma evacuação real, como acontecia antes do Katrina, já que isso exige a coordenação de transporte e hospedagem para a significativa minoria da população que carece de meios de transporte ou dinheiro para hotéis nos locais onde não conhece ninguém. A evacuação requer muitos recursos e despesas que muitas pessoas nesta cidade não têm.

Entre as pessoas que conheço pessoalmente, parece haver muitas que são relativamente novas na cidade e que não sabiam o que significava passar por uma tempestade dessa magnitude. Fico preocupada porque muitas pessoas não estavam preparadas, com estoque de alimentos não perecíveis. Pessoas com dependência de álcool ou drogas entrarão em abstinência, muitas não têm estoque de medicamentos essenciais. Vamos começar a ver os efeitos disso em breve.

Dentro da cidade, o dano mais significativo foi na rede elétrica. A empresa de serviços públicos diz que levará dias para saber por quanto tempo vamos ficar sem energia, mas ela estima que o consumidor médio ficará sem energia por três semanas. Além disso, tivemos muitos danos nos telhados das casas, alguns danos causados pela infiltração de água, árvores caídas e algumas inundações nas ruas que diminuíram rapidamente. Vários hospitais perderam grandes partes de seus telhados e foram forçados a transferir pacientes para outros hospitais, que já tinham poucas vagas devido ao COVID-19 e à falta de trabalhadores.

Os serviços de esgoto e água parecem relativamente inalterados na cidade de Nova Orleans, mas na área metropolitana, em Jefferson Parish, não tem água e os hospitais também estão sendo obrigados a transferir seus pacientes para hospitais na cidade. Um pouco mais longe, nas áreas a cerca de 30 minutos a oeste e ao sul daqui, há cidades onde muitas casas foram completamente destruídas e as enchentes chegaram até o telhado de algumas outras, pois os diques acabaram se rompendo. Os danos nessas áreas ainda não foram totalmente avaliados ou divulgados ao público.

Você é enfermeira em um dos principais hospitais de Nova Orleans durante a pior tempestade em 16 anos e um enorme ressurgimento do COVID-19. Qual a situação dos hospitais e prontos-socorros no momento?

Muitos hospitais já estavam próximos do colapso nas últimas seis semanas devido ao surto de COVID-19, que acontecia em uma população que praticamente não havia sido vacinada. Essa era nossa quarta onda da doença desde o início da pandemia. Muitos hospitais contam com trabalhadores vindes de outras cidades, que não conhecem Nova Orleans e as instalações. Trabalhadores dos Serviços de Emergência Médica (em inglês, Emergency Medical Services) que conheço estão muito estressades o tempo todo e muitas pessoas da enfermaria estão trabalhando em mais turnos do que gostariam.

É importante mencionar que, nos EUA, atualmente, os hospitais estão entre as empresas mais ligadas ao capital, às práticas das grandes corporações e de caráter autoritário. Não há escassez de trabalhadores. Basta olhar para o número de profissionais licenciados na área médica em comparação com o número de vagas abertas – na última contagem, havia 6.000 vagas abertas de enfermagem no estado da Louisiana. Em vez disso, há uma escassez de pessoas dispostas a tolerar os baixos salários e o número elevadíssimo de pacientes, o que coloca em risco a segurança de pacientes, bem como a licença de trabalhadores. Se pesquisarmos as dez pessoas mais ricas da área metropolitana de Nova Orleans, vemos que são, em sua maioria, CEOs de hospitais.

Infelizmente, acho que é por isso que são os lugares com melhores recursos para se estar agora na cidade, porque muito dinheiro está em jogo para garantir que seu funcionamento ocorra sem problemas. Além de ficar no trabalho 24 horas por dia, trabalhando ou dormindo, sinto-me bastante isolada do mundo exterior por ter eletricidade, internet, ar condicionado, proteção contra a tempestade e acesso a alimentos, junto com uma comunidade de várias centenas de outras pessoas no mesmo barco, enquanto muitas dessas coisas estão faltando para a maioria das outras pessoas na cidade agora.

Você poderia falar um pouco sobre como os governos municipal e estadual se prepararam para a tempestade e como estão respondendo aos efeitos dela?

Parece que os governos locais e os sistemas hospitalares aprenderam algumas coisas depois do Katrina. Os hospitais ficaram sem energia elétrica durante o Katrina porque seus geradores estavam localizados no andar térreo e, consequentemente, inundaram. Eu ouvi falar só de um hospital na área ficando sem energia, o que forçou a equipe a fazer ventilação manual – apertar grandes bolsas de plástico com oxigênio com as mãos para ajudar pacientes em situação crítica. O sistema de diques dentro da cidade não falhou como da última vez, e isso evitou inundações catastróficas, mas o mesmo não pode ser dito para as áreas no entorno de Nova Orleans.

Parece que essas cidades foram pegas de surpresa por causa da velocidade da tempestade, levando em consideração o anúncio de que não havia tempo suficiente para evacuar as pessoas. Mas havia tempo suficiente para eles enviarem unidades “anti-saque”.

Como você enxerga as respostas das próprias comunidades à tempestade? Quem está tentando organizar isso?

Felizmente, Nova Orleans tem uma rede de ajuda mútua popular bastante sólida que surgiu desde o início da pandemia de COVID-19. A maior parte das atividades agora parecem estar focadas em conseguir dinheiro para as pessoas que precisam evacuar a cidade e em comunicar as necessidades para as pessoas que estão voltando da evacuação – embora pareça haver um consenso de que mais pessoas na cidade não é o que é necessário agora, devido à infraestrutura restrita, então tanto os governos locais quanto as redes de ajuda mútua estão pedindo àqueles que evacuaram para continuarem fora de Nova Orleans por enquanto.

Não ouvi falar de nenhum desses grupos urbanos se aventurando em barcos para resgatar pessoas nas áreas que foram mais inundadas ou algo parecido.

Há muito tempo, as pessoas falam sobre a possibilidade de “outro Katrina” e que é inevitável que os desastres naturais no sul da Louisiana se agravem devido às mudanças climáticas. Isso é inevitável?

Eu realmente acho que essas tempestades catastróficas repetidas são inevitáveis. Mas também acredito que elas podem ser mitigadas com uma melhor preparação e mudando a forma como interagimos com a água e a terra. Eu não sei dizer exatamente qual é nossa situação atual. O zine “Desert” vem à mente.

Também posso dizer que muitas pessoas – desde pessoas que nasceram e cresceram aqui, há várias gerações, até pessoas que se mudaram para cá nos últimos dois anos – estão todas falando sobre se mudar devido a desastres como este serem inevitáveis.

O que esses eventos podem nos contar sobre o futuro que todes vamos enfrentar e como podemos nos preparar para isso?

O que está acontecendo em Nova Orleans é um alerta para o resto do país, com certeza. As cidades costeiras abrigam uma grande parte da população do país e muito de sua cultura mais amada. Elas provavelmente vão ficar inabitáveis. É inescapavelmente trágico. Não tenho nenhuma ideia de como nos prepararemos para isso, porque vamos descobrindo à medida que fazemos as coisas. Muitas pessoas muito inteligentes que conheço têm pensado nessa questão há muito tempo, mas não houve realmente nenhum plano de ação como resultado disso. É uma merda.

O que as pessoas em Nova Orleans mais precisam agora, e como as pessoas que não estão lá podem ajudar?

O mais urgente, pelo que percebi, é ajudar aquelas pessoas que não têm dinheiro para sair daqui. Elas estão pedindo doações individuais.

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