Posted on: 15 de janeiro de 2022 Posted by: Teia dos Povos Comments: 0

*Transcrição dos textos e apresentação: Rosângela Pereira de Tugny

Apresentação

No dia 9 de janeiro de 2022, quando ainda as águas mostravam suas forças em diversos territórios do país, um encontro se deu numa terra conhecida como Fazenda de Itamunheque, no Município de Teófilo Otoni, onde uma comunidade de Tikmũ’ũn e Yãmĩyxop se instala para dedicar toda sua força a um sonho: o sonho de transformá-la em uma Aldeia-Escola-Floresta.

Na contramão das ações irresponsáveis dos donos do capital que não escutam o chamado das águas, da terra, dos ventos e dos povos que sofrem cada vez mais com a ausência de justiça climática, na contramão daqueles que não acreditam mais ser possível reverter as forças que colocam em risco a vida humana na Terra, na contramão dos que não compreendem a necessidade da permanência dos povos indígenas sobre os territórios, cantos e palavras, sementes e ramas mostraram outros caminhos.

Neste encontro, estavam Isael Maxakali, Sueli Maxakali e Joelson Maxakali. Recentemente eles se tornaram doutores por Notório Saber da Universidade Federal de Minas Gerais. Isael Maxakali é doutor em Comunicação Social pelo que vem produzindo com seu trabalho de cinema e imagem, narrando as histórias dos povos Tikmũ’ũn e seus aliados Yãmĩyxop. Sueli Maxakali é doutora em Letras-Estudos Literários pelo trabalho de tradução interlinguística, intercultural e intersemiótica que vem exemplarmente realizando, educando nosso mundo com os conhecimentos dos seus ancestrais. E Joelson Ferreira de Oliveira é Doutor em  Arquitetura e Urbanismo pelas transformações que propiciou em grande parte da paisagem sul baiana, pelas suas formulações teóricas que envolvem a transição agroecológica em comunhão com a luta dos povos ancestrais pela terra e território, pela soberania alimentar, hídrica, epistêmica, pela autodeterminação dos povos e defesa da Mãe-Terra.

Os saberes do cinema, da imagem, das sementes, da floresta, da educação, da língua, das letras, da espiritualidade,  das águas, das lutas comunitárias ali se reuniram.  Sueli, Isael e Joelson respondem aos impasses da pandemia e à catástrofe ambiental e humanitária que vivemos firmando suas alianças ancestrais de povos pretos e indígenas, construídas no sonho, na escuta da Mãe-Terra, no compromisso com a memória, mas também com as ramas, as sementes, e os enfrentamentos que precisam fazer para pisar na terra, tratar da terra e das nascentes.

De suas palavras emerge a filosofia viva da Aldeia-Escola-Floresta.

Povo do território Aldeia-Escola-Floresta pousa para foto junto com Mestre Joelson Oliveira, Conselheira Solange Brito.

mĩm noxop yãĩ ĩy

mĩm noxop yãĩ ĩy

mĩm noxop yãĩ ĩy

mĩm noxop yãĩ ĩy

mĩm noxop yãĩ ĩy

mĩm noxop yãĩ ĩy haah

‘ĩymet yũmmi hax ha

‘ĩymet yũmmi

‘ĩymet yũmmi ĩymet yũmmi ĩymet yũmmi

‘ĩymet yũmmi hax ha

‘ĩymet yũmmi ĩymet yũmmi ĩymet yũmmi

ĩymet yũmmi  hax ha

‘ĩymet yũmmi hax ha

ĩymet yũmmi hox

mĩmxux yīxux koma xip haa

mõgmõg mĩmxux nãmõ

mĩmxux koma xip haa

mĩmxux koma xip

saudades da árvore comprida

saudades da árvore comprida

saudades da árvore comprida

saudades da árvore comprida

saudades da árvore comprida

saudades da árvore comprida haa

minha casa vejo ha ii ha aa

minha casa vejo

minha casa vejo minha casa vejo minha casa vejo

minha casa vejo ha ii ha aa

minha casa vejo minha casa vejo minha casa vejo

minha casa vejo ha ii ha aa

minha casa vejo ha ii ha aa

minha casa vejo hôi

no meio das folhas verdes, haa

o gavião-espírito dentro das folhas

no meio das folhas verdes, haa

o gavião-espírito no meio das folhas

Palavras de Isael Maxakali

Vou falar do nosso sonho.

O sonho da minha comunidade da Aldeia-Escola-Floresta.

O nosso sonho não saiu agora.

Desde 2005 que estamos sonhando com a terra

Porque fui professor e dava aula para crianças.

Eu falava sobre todas as caças que não existem mais. Só têm o nome.

O nosso desenho representa todos os bichos que não existem mais, porque acabaram todos: as caças maiores, as onças, as antas, os jacarés, as capivaras. E representa outros bichos que perdemos em Água Boa, porque acabou a mata de lá.

Nós saímos de Água Boa, fizemos retomada, pegamos nossa terra de volta. O nosso território. Foi em 2005, no município de Santa Helena de Minas. Mas deu muito problema com os políticos e fazendeiros.

E viemos para Ladainha. Fui eu que escolhi o nome de Aldeia Verde, porque, quando chegamos, vimos a Mata Verde, fizemos reunião e escolhemos o nome.

E nós ficamos. E nossa família cresceu bastante. Mas a terra não cresceu. Aí não tinha espaço para fazer casas, não tinha terra plana para arar e plantar comida.

Aí pensamos em lutar para não desmatar a mata de Aldeia Verde.

Temos que preservar.

Lutar para conseguir uma terra com rio e terras baixas, com espaço para as famílias construírem suas moradias.

Nós sofremos bastante no ano passado com essa doença que não tem cura. Pensei que ia matar nossos idosos, nossos pajés. Fizemos o Encontro de Pajés para treinar os jovens dentro da aldeia. Essa doença não é daquelas que nós conseguimos curar. Pensei que ia matar pajés e pessoas importantes.

Visitamos várias terras. Contei e perdi a conta. Não achava terra. Os fazendeiros não queriam vender, não queriam ajudar os povos indígenas. Vimos que tinha muito preconceito. Não querem vender terra para indígenas.

Depois fizemos a visita em Itamunheque. Fomos  em 4 pessoas e depois 8 pessoas para visitar. Temos 8 lideranças. Toda a comunidade tem o seu grupo. Fizemos reunião grande com as lideranças que são responsáveis por suas famílias. Aí gostaram dessa terra, fizemos reunião e decidimos.

Porque esta terra, o Vale do Mucuri, era nosso território maior, não tinha limite. Mas hoje a nossa terra é muito pequena. Temos 95 famílias numa terra pequena e uma só pessoa ocupa terra de mais de 100 alqueires. Um fazendeiro tem terra grande e nós, povos indígenas, estamos sem terra.

Nosso sonho é pegar a terra e recuperar. Porque ela precisa ser curada, precisa de tratamento. Porque a terra é viva. Terra fala, terra olha a gente e terra grita.

Mas o fazendeiro não escuta que a terra está gritando e precisa de socorro.

Por isso que nós queremos reflorestar, e fazer a Aldeia-Escola-Floresta.

Isael Maxakali caminhando no Território da Aldeia-Escola-Floresta, Mestre Joelson Ferreira ao fundo. Foto: Roberto Romero.

O nosso sonho tem que se realizar.

O nosso sonho é pegar terra, reflorestar.

Essa terra é nossa.

Nũhũ yãgmũ yõg hãm.

Porque essa terra é nossa?

Sem a terra não tem escola diferenciada.

Sem a terra não tem saúde diferenciada.

Porque nós lutamos para conquistar a terra.

Nós realizamos nosso sonho e hoje vamos criar muitos projetos em cima da terra. Da nossa terra.

Porque nós chamamos Aldeia-Escola-Floresta?

Porque onde tem aldeia  tudo é “sala de aula”.

Onde tem árvore e sombra é “sala de aula”. As crianças vão cantando o nosso ritual. Imitam.

Na beira do rio elas vão brincar, cantar e escrever na areia.

Tudo é “sala de aula” dentro da aldeia.

Todos os homens vão dentro do mato e vão cantando dentro do mato. Vão tirando madeira e vão cantando.

Por isso colocamos o nome Aldeia-Escola-Floresta porque toda a aldeia é escola.

Onde tem sombra as mulheres vão se juntar e fazer os artesanatos.

As crianças vão chegando, escutando do lado e aprendendo também. A aldeia inteira é escola.

Onde tem barraca de ritual é uma escola verdadeira, muito importante. Vai ter canto, história, cultura, comida tradicional.

Nós, comunidade da Aldeia-Escola-Floresta, queremos terra para Yãmĩyxop, para crianças, para o futuro.

Porque nós nascemos todos junto com a floresta, nascemos todos junto com a caça.

Essa terra é nossa mãe porque ela alimenta todos nós.

Todas as caças os nossos cantos registram.

Alguns bichos que perdemos, o canto registra.

E os desenhos também representam os animais.

Tem bichos grandes que perdemos, mas registramos o nome. Nosso canto fala seus nomes.

Nós Maxakali somos sofredores, mas nosso Yãmĩy nos acompanha.

Todos os dias os Yãmĩy saem comigo, com todos os Maxakali.

Porque eu falo Aldeia-Escola-Floresta?

Se eu sair daqui, se eu for para o mato, o meu Yãmĩy está me acompanhando, eu vou cantando dentro do mato.

Se eu brincar no rio, outro Yãmĩy vai me acompanhar. Eu vou imitar qualquer bicho: peixe, jacaré, andorinha, vou fazer seus cantos.

Por isso é que chamamos Aldeia-Escola-Floresta.

Aqui, a minha casa é escola, porque estamos passando o nosso conhecimento para os jovens que estão aprendendo agora.

Nós somos professores. Nós estamos falando. Eles estão escutando as falas.

Pegamos a palavra boa para esperar a nossa memória, para não cair.

Tem que crescer. Ter o conhecimento diferente, pegar o outro conhecimento para crescer a Aldeia-Escola-Floresta.

Precisamos organizar essa terra onde vamos plantar as mudas de árvores, de frutas, onde vai ter escola, onde vai ter posto de saúde para atender minha comunidade, onde vai ter sede para a Funai atender minha comunidade.

Hoje fiquei muito feliz porque vocês estão aqui, meus parentes pankararu, Joelson,  Solange, Rosângela, Roberto, Geralda, Maria Rosária, Renildo, porque nós não estamos sozinhos, porque vocês estão preocupados  com nossa situação.

Fiquei muito feliz de receber as mudas e as ramas de batata do Assentamento Terra Vista.

Também fiquei muito feliz de receber todos os parentes que estão torcendo para conquistarmos a terra.

Queria agradecer o professor Renildo que doou bastante madeira para nós. Antes de ontem tiramos muita madeira com chuva. Carregamos de noite.

Não é fácil nossa situação.

Essa terra precisa de ter a mata preservada.

Quando chegamos aqui em 27 de setembro a terra estava muito seca. 

Os galhos não tinham folha. Pensei que as árvores estavam todas secando.

A terra precisa de tratamento. Nós temos que curar a terra para a mata voltar ao normal.

E as nascentes também.

Tem 7 nascentes aqui. Perderam 5 nascentes. E tem duas vivas. Temos que tratar. Porque a mata faz a água para nós bebermos.

E também a nossa comida tem que ser a tradicional.

Porque criamos caixa escolar?

Temos que produzir para abastecer a escola. Porque nossos estudantes comem alimentos de não-indígenas e aí ficam fracos. Precisam ter merenda com comida tradicional.

Por isso, vamos organizar completamente a Escola da Aldeia-Escola-Floresta.

Quando cheguei na Aldeia Verde a merenda tinha coisas que crianças não comiam e aí jogavam dinheiro fora. Por isso, vamos plantar muita roça aqui, plantar mandioca, feijão, arroz, banana, batata doce, bananeira, para abastecer a escola diferenciada.

Sempre falamos “Escola diferenciada”, mas nunca ela se diferenciou. Mas agora vamos diferenciar mesmo para as crianças comerem nossa comida tradicional e não perder a nossa cultura.

E também a bioconstrução.

Estamos preocupados com nossa escrita, nossa letra, nossos rituais, nossa pintura, nossa língua, mas nos esquecemos da nossa casa.

Estou preocupado que os jovens não saibam fazer suas casas, vão fazer empréstimo para construir alvenaria com cimento. O cimento esquenta muito.

Mas a nossa casa tradicional é mais fresquinha. O vento entra à noite. Quando você fica na cidade, vai ficar com muito calor, porque tem muito ferro, cimento, asfalto, vidro. Faz calor.

Mas a terra, assim natural, dentro do mato, é natureza viva.

Hoje nós estamos aqui para nos organizar. Crescer.

No futuro vamos crescer a terra também. Temos uma emenda. Vamos procurar alguém que venda a terra para se ampliar. Todos os anos nascem crianças e aumentam as famílias, mas a terra não cresce. Nós não podemos construir uma casa em cima da outra. Temos que fazer a casa no chão mesmo. Não é nossa cultura construir prédios de apartamentos. Estamos preservando a nossa cultura.

Todas etnias são diferentes. Topa passou a cultura para cada um deles  e passou pra nós a religião.

Temos que segurar nossa cultura.

A nossa cultura não está morta. Está viva ainda. Temos que fortalecer a nossa cultura. Temos que fortalecer os pajés. Hoje temos poucos pajés. Estou preocupado. Temos que ajudar todos os pajés, aqui, na Aldeia Verde, na Cachoeirinha, na Água Boa e no Pradinho. Os pajés precisam de ter saúde. Temos que cuidar dos nossos pajés.

A saúde do Estado não se preocupa com todos os idosos. Precisam de tratamento. Minha mãe está aqui e precisa de exames, precisa de cirurgia. Ela não está velha. Só enxerga mal. Tem que melhorar, fazer tratamento em todos os pajés.

Os pajés são muito importantes para nós porque curam pessoas doentes. Passam conhecimento para os jovens, os netos, as netas. Passam seus rituais para os filhos. Minha casa é grande. Tem espaço. Vai crescer mais para receber mais gente e dar força para a Aldeia-Escola-Floresta.

Palavras de Sueli Maxakali

Nosso sonho é reflorestar as nascentes.

Porque nossa mata é muito importante.

Nós falamos que a terra precisa de socorro.

Porque ali, todo o vale do Mucuri foi a região do nosso povo Maxakali.

Hoje nossa terra tem limites. Nós não podemos passar dos limites.

O índio não pode ir na cidade. Nós recebemos muito preconceito.

Vimos que nós precisamos ter uma terra para poder falar: “essa terra é do nosso povo que é antigo, é onde ele passou”.

Teófilo Otoni era região do meu povo Maxakali.

Ninguém sabe que meu povo existia antes dos portugueses chegarem.

Quando os portugueses chegaram, meu povo já existia, abriu os braços e os recebeu.

Hoje nós recebemos muito preconceito, muita discriminação.

Porque acham que somos inimigos.

Nossa origem é o Vale do Mucuri, a Bahia. Fomos perdendo terra.

Tinha o ritual que se chamava Yãmĩynãg. Ele guiava o meu povo. Quando ia chegar algum perigo, que iria ter morte,  ele os tirava para mudar a aldeia. Assim, quando se deslocavam, eles iam perdendo o território.

Por isso, nosso filme fala: “Essa terra é nossa”:  Nũhũ yãgmũ yõg hãm.

Antes de nós sairmos da Aldeia Verde já tínhamos este filme “Essa terra é nossa”.

Sempre ouvi as histórias dos velhos e dos tios contando sobre como perdemos o território. Aqui, em Ladainha, em Poté. Poté é palavra indígena.

Se formos contar, ficaremos até de noite. A região toda por onde meu povo passou.

Nosso povo perdeu tudo.

E assim acabaram as matas, acabaram os peixes.

A poluição está comendo os rios, poluindo, as doenças estão chegando, e matando os mais velhos.

Nossos mais velhos são muito importantes.

Eles ensinam pra nós os cantos, os cantos do ritual, levam as crianças para o kuxex.

Hoje precisamos ter uma terra histórica para meu povo, para que quando chegar um mais novo eu possa dizer: “essa terra tem a nossa história. Essa terra é a história de onde passou meu povo Maxakali”.

Porque as pessoas não querem nem vender terra para os indígenas?

Sueli Maxakali caminha no Território da Aldeia-Escola-Floresta ao lado de Mestre Joelson Ferreira. Foto Roberto Romero.

Porque dizem que nós somos problema?

Nosso povo sempre foi problema pra eles?

Porque os indígenas para eles estão lá atrás na história.

Dizem que o índio não existe mais.

Se usamos roupas sofremos preconceito.

Lá na cidade de Machacalis usaram a imagem de um outro povo indígena, do México, para representar  a presença do nosso povo Maxakali.

Eles não nos reconhecem mais.

Morreram muitos do nosso povo. Em Santa Helena, em Pradinho.

Visitamos várias sepulturas.

E a terra ficou pra trás. Fomos lá, vimos onde nos tiraram da terra.

Foi muita violência contra nós.

Tivemos que sair de lá para não brigarmos entre nós. Foi quando viemos para Aldeia Verde.

Nosso alimento é o milho, a cana, um fruto do mato.

A comida do agrotóxico mata nosso povo também. Precisamos ter comida de verdade. Nosso ritual precisa ter comida de verdade.

Por isso procuramos uma terra para poder sobreviver.

Precisamos de conseguir uma terra que tenha nossa história.

Muitos dizem: “O índio não pode morar aqui porque é terra produtiva”.

Meu Yãmĩy é forte. Ele precisa de uma terra pra cantar de noite e nós darmos comida todos os dias. E nossas crianças vão aprendendo.

Por isso que pensamos: Aldeia-Escola-Floresta.

Ali nossas crianças vão aprender desde pequenas a dar comida para nosso ritual. E é passado dos mais velhos para nossas crianças. Quando eu estiver mais velha, eu vou passar o meu para a minha neta. E aí é minha neta quem vai cuidar do ritual.

É sempre passado.

Quando o Tatakox trazem Yãmĩyhex, quando estamos velhas, passamos para nossas crianças.

E toda a terra por onde meu povo passou também tem tudo registrado. Tem os nomes: katamaxit …, todos os locais têm nomes indígenas. 

Tem identificações de onde surgiu cada canto, onde cada pessoa foi enterrada.

Nós indígenas, donos da terra, precisamos da terra para sobreviver.

Hoje temos vários sonhos para essa terra.

Reflorestar essa terra.

Quando eu estiver velha quero ver a Aldeia-Escola-Floresta reflorestada, com as nascentes, com a cara mesmo de uma Aldeia-Escola-Floresta.

De verdade.

Precisamos reflorestar.

Nós Maxakali temos que aprender, conhecer, para ver como juntos vamos reflorestar a nossa mata, para ela voltar.

Sem a mata, a nossa respiração sofre. A doença vai chegando.

Por isso que fizemos esse canto “Mĩmnoxop yãy”, “Triste saudade da árvore” , “Cadê minha casa de verdade”, que o gavião canta e “Dentro da folha verde”, o último canto que cantamos.

É isso que vai fortalecer cada um de nós.

Fizemos 3 mudanças. Não foi fácil. Sofremos bastante. Perdemos  já 3 pessoas, mais duas em Concórdia. Já enterramos quatro pessoas. Agora aqui na Aldeia-Escola-Floresta perdemos a nossa velhinha, uma grande pajé, mais duas crianças.

Mas nisso, não ficamos tristes porque daqui um tempo o Tatakox vai trazer de volta. Aquelas crianças que morreram, Tatakox traz Yãmĩyhex de volta

É assim que sentimos, porque foi Yãmĩy kitok que ensinou meu povo, para poder sair e não perder nenhum canto.

Nenhuma memória se perdeu.

Os Yãmĩyxop ensinavam pra gente. Eles falavam: “vocês vão fugir hoje”. A gente fugia. “Vocês vão fugir amanhã”.  A gente fugia. E nisso, eles chegaram e saíram por aqui até chegar em Aldeia de Água Boa, onde tem duas pedras brutas, que foi onde o povo Maxakali se escondeu para se livrar da morte e da violência. 

Mas não perdeu o canto e não perdeu a história.

Por isso é muito importante nós podermos falar, porque sabemos que eles estão juntos.

E sabemos que vamos fortalecer a escola diferenciada. Ao contrário de quando chega alguma construção dentro da nossa aldeia, com o projeto pronto, que não fomos nós que fizemos. Por isso queremos fazer algo que é a cara da nossa Aldeia-Escola-Floresta.

Palavras de Mestre Joelson

Estou muito feliz por estar voltando a esta comunidade.

Me deram um nome aqui, Cati Dioé. 

Estamos à disposição de vocês, para contribuir naquilo que é possível.

Companheiros do Ceará mandaram 4 batatas para o Assentamento Terra Vista. Nós as plantamos, e nós trouxemos aqui as ramas das cinco qualidades  de batatas. Tenho certeza que elas vão florescer. Trouxemos também 4 qualidades de aipim para florir aqui nesta terra.

Estamos nos encontrando com o companheiro do Instituto Federal do Norte de Minas  e estamos dialogando para esta parceria aumentar cada vez mais para contribuir neste processo da Aldeia-Escola-Floresta.

Também trazemos um convite para que um grupo maior venha ao Terra Vista para consolidarmos o nosso trabalho de trocas de saberes e de sementes.

Mestre Joelson no Território da Aldeia-Escola-Floresta do povo Maxakali. Foto: Roberto Romero.

É uma alegria muito grande estar aqui.

Estou vendo que a Terra é boa. É bonita.

Juntos vamos fazer um trabalho para fortalecer o modo de vida Maxakali.

Tudo o que queremos fortalecer não é para mudar o modo de vida de vocês.

Estou feliz porque estive em Água Boa e no Pradinho e acredito cada vez mais que vocês não desistiram do seu modo de vida.

Espero que continuem assim.

Tenho certeza que a Aldeia-Escola-Floresta vai ser uma referência para iluminar, inclusive os incrédulos, que nunca acreditaram que podemos restabelecer e cuidar da nossa Mãe Terra  com o maior cuidado. E a Mãe Terra vai nos oferecer comida, abundância, floresta e tudo aquilo que ela gosta de nos ofertar.

Estou com o espírito aqui muito feliz.

O pouquinho que tivermos vamos compartilhar com vocês para fortalecer o modo de vida Maxakali.

Queremos aprender muito com vocês. 

Esse ensinamento de vocês, queremos levar para nossa comunidade. Para que a gente possa junto transformar esse nosso país em festa, trabalho e pão. Essa é nossa ideia

Que Ogum abra todos nossos caminhos.

Que possamos estar unidos e fortes com nosso grande pai e que possamos fazer esse sonho de vocês acontecerem.

Estou muito feliz de estar aqui com vocês.

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